A Vegetariana – Han Kang

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Avaliação: 4 de 5.

Você já terminou de ler um livro se perguntando porquê tinha se dedicado a essa leitura, achando que foi uma perda de tempo, e que “tudo bem, esse livro existe”. Mas depois que ele assentou, percebeu que não saía da sua cabeça, que cenas específicas voltavam em flashes indesejados, e que “tudo bem, acho que consigo entender porquê a autora ganhou um nobel”.

Provavelmente eu não leria A Vegetariana por livre e expontânea vontade. Coloquei na minha lista de TBR na BibliOn e no MecLivros, mas era só pra estar ali, meio que me lembrando que ele existia disponível nos catálogos. Como já comentei algumas vezes, ficção literária não costuma ser minha primeira opção de leitura, e eu normalmente não me saio muito bem com livros do gênero.

Só que eu voltei a fazer parte de um clube do livro na indústria vital. Devo ter comentado, ou não, que o primeiro que eu organizava tinha um foco muito mais de desenvolvimento de carreira e profissional, e meio que só eu lia os livros. Ótimo pra mim, mas não muito bom pra ideia de compartilhar e trocar opiniões.

Agora, o foco são livros de ficção! Com pessoas que também escolheram a leitura em conjunto e que têm conseguido ler. Estamos usando um cronograma de gêneros que outro clube do livro compartilhou, e tem sido interessante para filtrar as indicações que trocamos para a escolha da leitura final.

Em abril ou maio, o tema era “livro de ganhador de nobel de literatura”. Das opções sugeridas, como você já pode perceber pelo tema deste post, foi A Vegetariana o mais votado (inclusive por mim), e como comentei, minha primeira interação com a leitura não foi das melhores.

Se você não sabe nada sobre o livro, o mais importante aqui antes de tudo é que ele é CHEIO de gatilhos. A autora não poupa o leitor da crudeza de alguns dos piores sentimentos e ações que nós, como humanos, somos capazes. Ou seja, é bom ir preparado ou não ir.

O livro conta a história de Yeonghye, uma mulher coreana, casada, que tem um sonho tão perturbador que decide parar de comer carne. O que acompanhamos é a reação em três atos de pessoas de sua família à sua decisão chocante, para os padrões culturais da sociedade coreana.

No meu primeiro contato com o livro o que ficou comigo foi uma sensação de extremo desconforto por ter entrado na cabeça de personagens tão desagradáveis. Porque, veja bem, a história é sobre Yeonghye, mas não é ela que conta pra gente. As únicas vezes que ouvimos sua voz é quando ela narra os pesadelos que têm com frequência, e quando alguém dirige a conversa para ela.

Então, em cada um dos três atos estamos na cabeça do marido de Yeonghye, do cunhado, e de sua irmã mais velha. E nossa <suspiro>, que desafio foi ouvir esses personagens. E depois percebi o quão magistral é a escrita de Han Kang ao fazer com que pessoas odiosas sejam tão fáceis de consumir.

Mas me adianto. Na primeira parte, acompanhamos como o marido reage à decisão de Yeonghye se tornar vegetariana. E que homem ARGH, sabe? Ele já se apresenta como uma pessoa detestável mostrando o quanto é baixa sua auto-estima ao dizer que casou com Yeonghye porque ela não era muito bonita, inteligente ou “chamativa”. Dessa forma, ele poderia se sobressair à esposa, mesmo ele mesmo sendo medíocre. Ele é completamente egoísta e auto-centrado, e não consegue respeitar ou tentar entender o que está acontecendo para Yeonghye tomar uma decisão tão drástica como se tornar vegetariana. Pra ele, o mais preocupante é o que ele vai comer em casa a partir desse momento, e o que vão pensar dele já que a esposa é tão estranha.

Na segunda parte o narrador passa a ser o cunhado de Yeonghye. Tentando manter a história sem spoilers enquanto der, algo muito drástico acontece no final da primeira parte, que faz com que nossa protagonista “silenciosa” vá morar com a irmã mais velha por um tempo. O cunhado é um artista “video maker” que está passando por uma crise criativa. Ela acaba se tornando uma obsessão sexual a partir do momento que descobre que Yeonghye ainda tem uma mancha específica nas nádegas. Sério, esse cunhado é a pior pessoa da história; consegue ser ainda pior do que o marido. As coisas que ele faz para conseguir alcançar seus impulsos criativos são nojentas e detestáveis.

Na última parte, é a irmã mais velha que toma a frente da história, depois dos acontecimentos da segunda parte. Aqui temos uma visão mas sensível e feminina do que Yeonghye está “sofrendo”, o quanto o passado das duas, seu relacionamento com um pai abusivo, e as exigências da cultura coreana sobre as mulheres pode distruir a liberdade e a auto-percepção. É o momento mais triste de toda a narrativa e também é cheio de reflexões.

E sim, escrevendo sobre o livro agora mas faz perceber que talvez minha primeira leitura tenha sido rápida e superfial (como praticamente são todas as minhas leituras). E porque eu não queria chegar no encontro do clube do livro só com essa resposta superfial de “não gostei, 2 estrelas”, eu fiz uma coisa que normalmente eu não faço: fui procurar resenhas e análises de outras pessoas. Digo que não faço com frequência no sentido de tentar ver o que outras pessoas podem ter achado de diferente da minha opinão. Eu tendo a não querer me relacionar muito com livros que eu não gosto. Não gostei, ponto, acabou.

Mas como o livro ficou me “perseguindo”, e tinha o lance do encontro, fui atrás. E “ouvir” outras pessoas foi interessante e me ajudou a aprofundar um pouco mais o que eu tinha lido. Óbvio que encontrei opiniões tão rasas quanto a minha primeira impressão. Mas das avaliações que foram relevantes eu ouvi sobre a construção do texto (que apesar de temas pesados, as palavras fluem de uma forma rápida e com impacto, você vira as páginas sem perceber), o formato da narrativa (em cada parte, além de mudar o personagem que conta a história, a autora muda também a “pessoa”. na primeira parte é 1ª pessoa, na segunda 3ª pessoa…), o quão limitado acaba sendo nosso conhecimento da protagonista que no fim das contas nunca tem de verdade voz pra contar pra gente o que ela realmente quer, uma visão psicanalítica dos personagens e dos sonhos de Yeonghye, uma visão da cultura machista e patriarcal da Coreia…

Ou seja, o livro ganhou camadas, ganhou profundidade. Eu continuei detestando todos os personagens, inclusive a protagonista. Mas eu entendi melhor o que Han Kang talvez estivesse querendo ao escrever A Vegetariana. Não é sobre o choque por chocar, o gatilho para gerar desconforto. Tem certa conscientização sobre quem tem direito a tomar decisão sobre o próprio corpo. Tem o desrespeito por doenças mentais e falta de apoio para pessoas que precisam.

Juntando isso tudo à percepção das minhas colegas da indústria vital durante o clube, o livro realmente cresceu pra mim. Sim, ninguém gostou do personagens. Sim, tem muito gatilhos desconfortáveis que podem afastar pessoas. Mas ao deglutir o livro, mastigar com vontade, racionalizar e pensar sobre ele, dá pra perceber a força da escrita de Han Kang, o desconforto que gera ação e movimento do leitor.

“Ah, Samara, mas você recomenda ou não o livro?”. Bem, se você chegou até aqui, espero que eu tenha te ajudado a tomar uma decisão. Mas nessa eu não me responsabilizo.


Até a próxima!

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