resenha

Mil pedaços de você – Claudia Gray

7 jun 2017
Informações

Mil pedaços de você

Claudia Gray

HarperCollins Brasil

série Firebird #1

288 páginas | 2016

4.25

Design 4.5

História 4

14

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Marguerite Caine cresceu cercada por teorias científicas revolucionárias graças aos pais, dois físicos brilhantes. Mas nada chega aos pés da mais recente invenção de sua mãe — um aparelho chamado Firebird, que permite que as pessoas alcancem dimensões paralelas.

Quando o pai de Marguerite é assassinado, todas as evidências apontam para a mesma pessoa: Paul, o brilhante e enigmático pupilo dos professores. Antes de ser preso, ele escapa para outra realidade, fechando o ciclo do que parece ser o crime perfeito. Paul, no entanto, não considerou um fator fundamental: Marguerite. A filha do renomado cientista Henry Caine não sabe se é capaz de matar, mas, para vingar a morte de seu pai, está disposta a descobrir.

Com a ajuda de outro estudante de física, a garota persegue o suspeito por várias dimensões. Em cada novo mundo, Marguerite encontra outra versão de Paul e, a cada novo encontro, suas certezas sobre a culpa dele diminuem. Será que as mesmas dúvidas entre eles estão destinadas a surgirem, de novo e de novo, em todas as vidas dos dois?

Em meio a tantas existências drasticamente diferentes — uma grã-duquesa na Rússia czarista, uma órfã baladeira numa Londres futurista, uma refugiada em uma estação no meio do oceano —, Marguerite se questiona: entre todas as infinitas possibilidades do universo, o amor pode ser aquilo que perdura?

Design

Essa é uma das capas mais bonitas do ano. Na verdade, as capas dessa série são todas maravilhosas. Acho que elas conseguem interpretar bem essa questão de multiplicidade de universos.

Tá bem que você só tem duas cidades espelhadas, quando na verdade, só nesse livro, Marguerite passa por umas quatro outras dimensões fora a sua original. Mas você entende a ideia.

Acho que o que eu mais gosto é essa sobreposição de algo que parece uma colagem de fotos com uma pintura de aquarela. Aquarela sempre me passa uma sensação de efemeridade, muito provavelmente por conta de ser uma técnica à base de água.

Em Mil pedaços de você temos dois panoramas de dimensões importantes para Marguerite: Londres, com prédios modernos e espelhados no topo e em tons cinzentos; e São Petersburgo, com os prédios característicos da arquitetura russa, com aquelas cúpulas de sorvete, embaixo.

O mais legal aqui é que o título do livro consegue se integrar totalmente na arte das cidades, ao mesmo tempo que se mantém completamente legível. Culpa provavelmente da fonte sans-serif em caixa alta, mega modernosa, e do suave dropshadow na parte cinza, para auxiliar na legibilidade da cor branca do título.

É uma pena que na lombada não exista uma marcação de volume para você se encontrar entre os três livros da série, mas em compensação, a quarta-capa tem uma arte de aquarela quase tão linda quanto a capa em si. E por mais que não traga a sinopse do livro, o trecho que escolheram para “vender” o livro é realmente tudo o que você precisa para comprar acreditando que vai ser ótimo.

Gostei bastante do miolo desse livro. A fonte do texto é uma serifa bonita, um pouco mais pesada, o que escurece um pouco as letras, mas é gostosa de ler. A margem é equilibrada com a mancha gráfica, e eu gostei de terem colocado as informações que normalmente vêm no cabeçalho, dividindo o espaço do rodapé com a paginação.

Só tenho uma questão com o projeto, e é nas aberturas de capítulo. Aqui, os dois panoramas da capa se repetem ao longo do livro, alternando ao longo dos capítulos. Só que, na minha cabeça exigente e sem noção da vida, os panoramas deviam estar associados aos capítulos das dimensões que se passam neles. Dessa forma, os capítulos em que os personagens estão em Londres seriam com a arte de Londres. E os que eles estão na Rússia, os da Rússia… Dessa forma dava para contextualizar com a arte a localização e o universo em que o leitor estava acompanhando a história.

Mas já viu, né? Mil pedaços de você se passa em pelo menos cinco universos diferentes. Imagina o trabalho de criar um panorama para cada um deles. Imagina isso multiplicado por uma trilogia. Ia ser lindo? Com certeza! Ia ser prático? Muito provavelmente não. Mas foi a bossa que roubou meio ponto do projeto gráfico como um todo? Absolutamente. :P


História

Conheci Claudia Gray na série Evernight e foi amor à primeira lida. Na época que li Noite Eterna a autora conseguiu me surpreender e conquistar com uma virada na história e com o romance entre os protagonistas. E foi assim com todos os livros da série (uma pena que a Planeta nunca lançou os spin-offs).

Então eu tinha uma certa expectativa com Mil pedaços de você, o que poderia não ser muito saudável, já que tem uma questão importante aqui. O livro é uma YA e já faz algum tempo que o gênero não é minha primeira escolha de leitura.

Não lia YA por uma miríade de questões: eu estava sentindo que era tudo a mesma história, só que escrita por pessoas diferentes. Special snowflakes, slut shame, triângulos amorosos, angústia adolescente… Andei um tempo afastada desse tipo de trama porque simplesmente não me atingia mais.

Só que Claudia Gray escreve jovens em um ambiente fantástico, por isso que fui com expectativa e certa ansiedade pelo que ela desenvolveria. Principalmente porque o livro é tratado como sci-fi, o que não acredito ser tão comum em histórias do gênero.

Então o que eu estava esperando? Claudia Gray, personagens interessantes, sci-fi e, obviamente, romance. Afinal, um livro que começa com o seguinte trecho realmente promete:

“Minha mão treme no instante que me apoio no muro de tijolos. É difícil respirar, difícil entender onde estou. (…) Com os dedos trêmulos, tiro a tampa e começo a rabiscar o cartaz rasgado colado ao muro. É a mensagem que preciso passar adiante, o único objetivo do qual tenho que me lembrar depois que tudo mais que me faz ser quem sou desaparecer. Mate Paul Markov.”

Assim, confesso que o começo da história foi complicado porque é um pouco confuso, fragmentado e tendencioso (porque ouvimos a história em primeira pessoa contada por Marguerite). Ao mesmo tempo eu achei previsível e com certos clichês na construção dos personagens principais. Felizmente Gray consegue trabalhar com a previsibilidade, dando as justificativas que eu precisava para entender o que achei tão lugar comum em sua história. Eu já sabia o “porquê”, só faltava ela me explicar o “como”.

Fiquei na dúvida se considerava Mil pedaços de você sci-fi ou não. O tema principal da história, a possibilidade da existência do multiverso, é comum no gênero o que dá certa base científica para a história. Mas não é uma base lá muito sólida, já que a protagonista não se preocupa em explicar como muitas coisas acontecem ou funcionam. Principalmente porque ela só é a usuária da tecnologia que a permite fazer os saltos dimensionais, mas não faz muito sentido para ela o funcionamento de tudo.

Ela se apega ao que aprendeu oralmente com os pais e seus estagiários, que são realmente os especialistas nos assuntos científicos. Alguns conceitos ficam parecendo falhos no começo da história, mas só porque Gray achou melhor explicar alguns “furos” só mais pra frente, quando de alguma forma eles era relembrados e precisavam ser consertados.

Então ela joga alguns termos aleatoriamente ao longo das páginas como teoria das cordas, física quântica, gato de Schrödinger, mas não existe muita fundamentação teórica paras coisas que aparecem. Tudo bem, porque acho que ninguém aqui está atrás de hard sci-fi, mas sei lá. Eu gostaria de uma fundamentação melhor da tecnologia, nem que fosse fantástica mesmo.

Falando um pouco sobre os personagens. Eu senti aquele cheiro característico do triângulo amoroso assim que comecei os primeiros capítulos. No início, quando Marguerite fala de Paul e Theo, que são os ajudantes de seus pais e moram na sua casa, fica até difícil de saber qual dos dois têm mais chance. Marguerite está atirando para todos os lados!

Mas conforme a história progride, você já consegue perceber tanto uma preferência da personagem quanto a sua própria. Acho que no meu caso, eu segui exatamente para onde a autora deveria apontar o desenvolvimento da história, daí o lance de ser previsível.

Uma breve contextualização sobre o Firebird. Basicamente, ele é um dispositivo criado pela mãe de Marguerite que permite que o usuário envie sua consciência para uma outra dimensão, ocupando o corpo equivalente ao seu nesse novo lugar. Só que para ancorar sua consciência nesse “novo” corpo, o viajante precisa estar de posse do Firebird o tempo todo, senão o hospedeiro pode recuperar o controle da própria consciência.

Ela vai adicionando informações conforme situações que pedem explicações vão acontecendo na aventura de Marguerite. No fim das contas você está entendendo relativamente bem como funciona todo o mecanismo, mesmo que seja confuso na hora das explicações finais e resoluções dos mistérios da trama.

Obviamente, Marguerite começa a se questionar em dado momento se ela não está tirando a escolha da Marguerite-hospedeira ao ocupar seu lugar nas dimensões para as quais salta. O quão ético de sua parte é viver a vida de outra pessoa e tirar o livre-arbítrio dela, mesmo que essa pessoa seja você mesma?

E, se você se apaixona por uma versão de alguém em uma dimensão, ao se relacionar com outra versão de outra dimensão seria trair a primeira pessoa?! Tão sentindo a cabeça pesar?! Tão sentindo aquela coceira de WTF?! O.o

Então, sim. O livro pode ter começado arrastado, mas os questionamentos de Marguerite, principalmente os que começam a surgir depois da dimensão “Russa”, transformam a história em algo muito mais interessante e envolvente.

De certa forma, acho que eu teria aproveitado mais ainda da leitura se tivesse feito próximo da época em que terminei Matéria Escura. Como os dois livros tratam sobre o multiverso, talvez um conceito complementasse o outro. Mas não tira o valor do divertimento mais leve que foi ler Mil Pedaços de Você. Vamos para o próximo!


Até a próxima! o/

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