resenha

Filhos do Fim do Mundo – Fábio M. Barreto

20 fev 2017
Informações

filhos do fim do mundo

fábio m. barreto

fantasy / leya

série ---

288 páginas | 2013

4

Design 4

História 4

É meia-noite quando a Humanidade é surpreendida pela notícia: todas as crianças nascidas nos últimos 12 meses morreram misteriosamente. Um repórter responsável por cobrir os eventos preparativos para o fim do mundo, deixa sua esposa grávida em casa, partindo para uma perigosa missão investigativa, em que terá de enfrentar grandes desafios para proteger aqueles que ama. Em “Filhos do Fim do Mundo”, acompanhamos a saga de um repórter tentando se equilibrar entre sua função de pai e jornalista em meio ao caos apocalíptico.

design

Filhos do Fim do Mundo tem uma capa interessante em sua simplicidade. É a ilustração de um subúrbio americano, daqueles cheio de casas lindas sem muros, que tem em praticamente todos os filmes que você já viu. Ela tem um quê meio terroso/árido misturado com uns grafismos “grunge”. O resultado é uma arte meio rabiscada que passa uma ideia de “desleixo” arrumado, se é que isso é possível.

Essa sensação também está presente na fonte escolhida para o título do livro. As letras me lembram um pouco o desenho de algumas fontes de máquina de escrever, tudo a ver com o personagem do Repórter. Somado aos grafismos rabiscados sobre as letras (se já não forem da própria fonte) traz ainda mais essa impressão de algo destruído ou danificado pelo tempo.

O equilíbrio entre a arte e a ocupação do título e o nome do autor foi muito bem feito na capa. E é bonito de ver que a rua do subúrbio abraça a lombada e a quarta-capa, mantendo toda a ambientação no livro como um todo.

Eu gostei bastante do resultado geral da capa com essa vibe meio de abandono, obsolescência e desmazelo.

O miolo que eu achei bastante tradicional, levando em consideração o que foi construído para a capa. As letras têm um tamanho um pouco grande para o meu gosto pessoal, mas estão bem balanceadas pela entrelinha confortável para a leitura.


história

Então… esse livro me fez mal. E mesmo assim, ou exatamente por culpa disso, eu achei que foi uma ótima jornada.

Talvez valha uma contextualização antes de tudo. Eu não gosto de gente. Tá, isso pode ser muito forte, mas em geral, eu não sei lidar bem com pessoas. Tenho dificuldade de lidar com aglomerações. Tenho dificuldade em ser social. Gosto de estar na minha casa com meu marido e, de vez em quando, encontrar meu núcleo familiar mais próximo e uma ou outra pessoas especiais.

Mas na maior parte do tempo eu não gosto de sair na rua porque tenho medo das pessoas que também estão na rua. Eu tenho medo da violência. Eu tenho medo de como o ser humano “evoluiu” ao longo das gerações. Eu tenho medo do egoísmo e do individualismo da sociedade. E acima de tudo, eu não acredito mais na humanidade como um todo.

Não.Tenho.Fé.No.Ser.Humano.

E muito do que se lê na história do Barreto é exatamente essa sensação que passa pra gente (ou pra mim, não é bonito ficar generalizando, né?). De que não tem jeito. De que seremos sempre seres individuais e independentes que não conseguem pensar no bem social e coletivo. O “meu” sempre primeiro.

Outra coisa que me incomoda no nosso presente… O poder alienante e meio doido da internet e da informação. Hoje você sabe de tudo o que precisar com uma simples pesquisa no Google. “Dá um Google”. Já virou até verbo.

Mas até onde realmente vai o seu/meu direito à informação? O quanto podemos/devemos ser invasivos e acabar com a segurança, a privacidade, o respeito alheio. Por que tudo sempre é uma conspiração ou ocultamento de informação? Por que o universo tem sempre que estar tramando contra nossas pequenas vidas?

Barreto criou uma história que se baseia um pouco no que poderia se tornar uma histeria coletiva ao se impedir o acesso à internet. Será que ao tirar essa “arma” das pessoas, não se empodera com outra muito mais forte que é o extremismo?

Em uma noite de natal, às 24h, todos os seres vivos do mundo com menos de 1 ano de vida morrem. Recém nascidos, que estavam vivos e bem na barriga de suas mãe, nascem mortos. Ninguém sabe por quê, mas é preciso descobrir se em algum lugar algum bebê conseguiu resistir à essa catástrofe.

Entra em cena o Repórter. Alíás, todos os personagens do livro não têm nome, eles são as personificações de suas profissões/papéis ao longo da história. Bem, Repórter. Sua Esposa está grávida, em vias de dar à luz, e o Repórter precisa tentar descobrir uma cura, ou encontrar um lugar onde seu Filho possa nascer. Preferencialmente vivo.

A história segue a jornada do Repórter na busca por respostas para o futuro da humanidade. Se nada for feito, o que se vislumbra é a extinção da raça humana, já que não nascem mais crianças, e não vai ser mais possível produzir comida.

O governo, pensando em evitar que o caos e o terror se espalhem, limita todos os tipos de comunicação, inclusive desligando a internet. Essa pra mim foi a forma mais fácil de causar histeria em massa, e consequentemente, conseguir tirar o pior do ser humano de todos os personagens.

Sei lá, pra mim o Barreto construiu todos os personagens de uma forma que eu simplesmente não gostava deles. O Repórter e o Blogueiro na maior parte do tempo eram a mesma pessoa. Prepotentes, egoístas, agressivos, bbks. Cada um à sua maneira conseguiu trazer problemas e desgraças a todos em sua volta. E são eles que são o foco do embate final da história. A única diferença aqui pra mim é que o Repórter se aproximou um pouco do que poderia ser uma redenção… só que isso não serviu para redimir o personagem pra mim.

Na verdade, não consegui sentir empatia por ninguém, porque o mundo indo pro inferno, e todo mundo estava sendo e mostrando o pior possível nessa situação. Não deu pra gostar de ninguém. Só consegui sentir a angústia, a tensão, o medo que os personagens sentiam por simplesmente não saberem o que estava acontecendo.

E isso até foi interessante na história. Não importa o que ou como aconteceu. Não é o foco arranjar uma explicação para a morte das crianças. O foco é descobrir uma cura e tentar encontrar alguma esperança de futuro.

Só que, pra mim, a parte final de clímax, onde em tese poderíamos encontrar algum tipo de alento (ou não, dependendo da escolha do autor) só me deixou mais para baixo. Não foi nem por conta de ser um livro de final aberto, o que por si só não é uma escolha que eu goste para uma conclusão, mas o fato de o autor se permitir ter esperança dentro de todo o cenário que ele criou.

Filhos do Fim do Mundo me lembrou bastante de Caixa de Pássaros, nessa questão de um acontecimento bizarro sem explicação que coloca a história em movimento. Mas diferente do livro do Malerman, que eu achei que só tinha como função causar desconforto, o do Barreto tinha uma intenção de reflexão sobre os assuntos que eu comentei láaaa em cima.

Eu só tive um problema mais sério com a história que foi de “temporizar” os acontecimento. Na maior parte do tempo eu não tinha ideia de quantas horas/dias/semanas tinham se passado. Pra mim, provavelmente aconteceu tudo, até o terço final, em um dia só. =/

UPDATE: o Barreto veio conversar comigo (ELE VEIO FALAR COMIGO NO TWITTER! Tou meio OMEDEZO ainda.. O.O) e comentou que a história se passa entre a noite de natal e do ano novo, e que ele fala sobre isso no livro. Acho que passou batido pra mim. Eu estava tão envolvida com os acontecimentos e com os personagens que não consegui guardar a informação. =/ #probleminhas

Eu já conhecia o Fábio M. Barreto de suas participações no RapaduraCast e no seu próprio podcast, Gente que Escreve. Gostei bastante de conhecer o Barreto escritor e fiquei com muita vontade de fazer os cursos de escrita que ele coordena. Né?! Vai que é só isso que falta para desencantar? :P


Até a próxima! o/

Esse foi o segundo livro que escolhi do meu “projeto” #12em2017. ^.~

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