resenha

Tartarugas até lá embaixo – John Green

6 nov 2017
Informações

Tartarugas até lá embaixo

John Green

Intrínseca

série ---

256 páginas | 2017

4.25

Design 4.5

História 4

14

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Depois de seis anos, milhões de livros vendidos, dois filmes de sucesso e uma legião de fãs apaixonados ao redor do mundo, John Green, autor do inesquecível A culpa é das estrelas, lança o mais pessoal de todos os seus romances: Tartarugas até lá embaixo.

A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Repleto de referências da vida do autor – entre elas, a tão marcada paixão pela cultura pop e o TOC, transtorno mental que o afeta desde a infância –, Tartarugas até lá embaixo tem tudo o que fez de John Green um dos mais queridos autores contemporâneos. Um livro incrível, recheado de frases sublinháveis, que fala de amizades duradouras e reencontros inesperados, fan-fics de Star Wars e – por que não? – peculiares répteis neozelandeses.

Design

Ah… uma capa tipográfica linda na minha vida! <3 Algumas coisas me deixam felizes. Chocolate, céu azul num dia frio, um bom livro, e capas tipográficas. XD Tá, não foi um crescendo válido, mas deu pra entender que eu valorizo quando uma capa usa só elementos textuais, e um ou outro elemento gráfico, para representar o livro.

No caso de Tartarugas até lá embaixo o papel da Intrínseca foi mais de adaptação de uma arte que foi criada para o livro lá de fora, mas o trabalho foi bastante bem feito.

Vocês já ouviram falar da psicologia das cores? É um troço interessante e comumente usado em design, onde as cores podem representar e ativar sensações nas pessoas. Obviamente existem várias vertentes e variações nessas interpretações do significado das cores, mas eu achei um bem interessante sobre o laranja. Ele diz:

“Altamente aceita entre a geração mais jovem. Associada a fascinação, criatividade, determinação, atração, encorajamento, e estímulo. Aumenta a oxigenação do cérebro e estimula a atividade mental. (Fonte)”

E um outro acrescenta que o laranja:

“É usado para estimular, comunicar diversão, atrair a atenção, expressar liberdade, e fascinar (Fonte)”

E eu acho que essa espiral enorme ocupando todo o fundo da capa do livro e criando um elemento de movimento em LARANJA, meio que tem tudo a ver com a explicação do que a cor significa, não é mesmo?

Agora, essa fonte nervosa usada no título e no nome do autor também tem tudo a ver com a mente da Aza. Acho que representa bem toda a sensação de ansiedade e uma certa inadequação que a personagem sente ao longo da história.

Eu acho que a proximidade do tamanho da fonte tanto pro título tanto por nome do autor meio que cria uma “frase” única, e é um tanto quanto estranho… mas ao mesmo tempo, essa unidade tem um pouco a ver com os pensamentos descontrolados e encadeados da Aza… Olha eu aqui interpretando algo que nem deve ter sido pensado desse jeito! XD

Adoro a versatilidade do logo da Intrínseca. Ele sempre permite uma variação para conversar e se integrar ainda mais com a arte da capa. Aqui ele aparece meio rabiscado, imitando a “pincelada energética” da fonte do texto! Além do pingo do i, que também é laranja e borradinho.

Não costumo ser muito fã dessas frases de venda na capa do livro, mas dessa vez estava tão integrado e sutil dentro da força do resto da capa, que ficou totalmente passável.

Falando de acabamento, a capa está toda com soft touch, mas como ela é em cor mais clara, não dá para perceber a gordura dos meus dedos sujando tudo. De resto, a espiral aparece de novo na quarta capa junto com uma citação que achei bastante vendável, mesmo eu preferindo quando a sinopse do livro aparece por aqui.

Eu queria que o laranja tivesse aparecido em algum outro elemento do miolo. Provavelmente iria encarecer bastante o projeto gráfico, mas né?… Dar pitaco eu posso, né?

Falando do miolo, ele é bem elegante, correto e bonito. Diferente de outros projetos de miolo da editora, Tartarugas até lá embaixo ficou até mais simples. As aberturas de capítulo são numeradas com seus números por extenso. A mancha gráfica é boa, mas achei um pouco desequilibrada na parte de baixo. A paginação foi colocada no cabeçalho junto com o nome do livro/autor, então o corpo do miolo aparentemente desceu um pouco mais. Se o bloco de texto tivesse menos uma linha no final talvez diminuísse minha sensação de que está apertado.

De resto, a fonte é ótima para leitura, não encontrei problemas de revisão que tenham me marcado, e existe um segundo modelo de diagramação para os momentos que os personagens estão trocando mensagens de texto no celular.


História

Tá, vamos começar essa resenha com um aviso. O livro tem diversos gatilhos ao longo das páginas. Então, se você é uma pessoa com altos níveis de ansiedade, com tendência a TOC, com pensamentos intrusivos, com dificuldade para lidar com automutilação (mesmo as mais leves possíveis), peço que considere ler Tartarugas até lá embaixo somente quando estiver bastante estável e com sentimentos felizes. Combinado?

Digo isso porque me considero uma pessoa bem ansiosa, às vezes tenho uns pensamentos intrusivos (não tanto quanto era na minha adolescência), e sou naturalmente impressionável. E muitas vezes me vi entrando na espiral junto com a Aza. Em um movimento alucinante e descendente de descontrole e de pensamentos ruins e tristes, me puxando indefinidamente e infinitamente para o fundo.

“O ser humano é tão dependente da linguagem que, até certo ponto, não consegue entender o que não podemos nomear. Por isso presumimos que as coisas sem nome não são reais. Usamos termos genéricos, como maluco ou dor crônica, termos que ao mesmo tempo marginalizam e minimizam. Dor crônica não exprime a dor inescapável, persistente, constante, opressiva. E o termo maluco chega até nós sem nem um pingo do terror e da preocupação que dominam você. E nenhum dos dois transmite a coragem das pessoas que enfrentam esse tipo de dor. (…)” p.88/89

Me vi perdendo o controle quando ela perdia o controle. E isso provavelmente é tudo mérito do John Green. Da maneira como ele consegue de forma sutil indicar que a Aza está entrando em crise, e vai aumentando a pressão e a tensão na forma como escreve e descreve o crescendo da crise. E se você não for bom em separar ficção da realidade vai parar naquele cantinho frio e escuro da sua mente, porque foi pra lá que o John Green levou a Aza, e consequentemente, você também.

“Penso: Você nunca vai se livrar disso.

Penso: Você não controla seus pensamentos.

Penso: Você está morrendo, e dentro de você tem bichos que vão comer seu corpo até irromperem pela pele.

Eu penso e penso e penso.” p.91

Quando comecei a ler Tartarugas até lá embaixo fiquei com medo de acabar sendo mais um livro de adolescentes fora da curva e pseudo-intelectualóides, cheio de frases de efeito e de lições de vida. E confesso que foi uma certa surpresa o que eu encontrei ao longo das páginas.

Acho que foi algo que me fez acreditar que eu estava realmente acompanhando uma pessoa com sérios problemas mentais. Uma pessoa que estava cercada de quem realmente se importava com ela, mas mesmo assim, seus problemas eram tão gigantes que não permitiam que enxergasse fora do seu próprio mundinho.

Aza é sim muito autocentrada e egocêntrica. Mas ela não consegue fugir da espiral da ansiedade e da angústia que é viver dentro de seu próprio corpo, com uma mente que a sabota a todo o momento. Depois que eu consegui ultrapassar um certo distanciamento inicial com a personagem, consegui encontrar várias semelhanças com ela. E consegui também ficar angustiada em como ela não consegue vencer toda a confusão que é a própria mente.

“Acho que não gosto de ter que viver num corpo, se é que isso faz sentido. Acho que talvez, no fundo, eu seja só um instrumento, uma coisa que existe apenas para transformar oxigênio em dióxido de carbono, um mero organismo nessa… nessa imensidão toda. E é um pouco aterrorizante pensar que o que eu considero como o meu… abre aspas, meu eu… fecha aspas… não está nem um pouco sob o meu controle.” p.102

De fora, para quem não tem o nível de problema que a personagem tem, parece muito simples perceber que não, você não precisa ficar abrindo um machucado o tempo todo para ver se está infectado ou com pus. Muitos menos para reforçar a sensação de que você é você e está aqui. É óbvio que você não pegou uma bactéria mortal só porque entrou em um hospital.

“(…) E se a gente não pode escolher o que faz nem o que pensa, então talvez a gente não seja real, sabe? Talvez eu seja uma mentira que estou sussurrando para mim mesma e nada mais.” p.102

Mas eu sou (relativamente) normal até onde eu me percebo por gente. E é muito óbvio entender que beber álcool gel não vai matar bactérias que não existem dentro de mim. Mas provavelmente pode acabar me matando.

Então sim, é angustiante acompanhar a narrativa em primeira pessoa de Aza e, assim como ela, não conseguir fugir dos pensamentos intrusivos que a inundam e a forçam a tomar atitudes que para nós não fazem o mínimo sentido.

E sim, dá pra sentir a tristeza que ela sente pela inadequação social que ela representa. Dá pra sentir todo o medo que Aza sente de que, talvez, ela nunca se torne um adulto funcional, e sempre dependa da mãe e de remédios para mantê-la estável.

A relação de Aza com os remédios é outra coisa que deixa você angustiado. É óbvio que os remédios ajudariam a estabilizar sua mente e a encontrar mais tranquilidade na sua rotina. Mas os remédios na verdade são uma fonte de contradição e angústia para ela, porque como ela pode ser normal se precisa de medicação para estar entre outras pessoas normais? (Na verdade, quem ou o que define normalidade no fim das contas?)

A mente de Aza é o principal condutor da história, e isso foi o que realmente me conquistou e mudou minha visão de Tartarugas até lá embaixo. Eu tinha ficado com medo que John Green pegasse o mistério do desaparecimento do pai de Davis para transformar a história em uma road trip doidona de busca pelo cara. E que desse uma “cura” milagrosa para os problemas de Aza. Ainda bem que não foi nada disso.

O desaparecimento do pai foi uma forma de trazer Davis de volta para a vida de Aza, construir mais um pilar de desenvolvimento em sua “inadequação” social e de relacionamento com as pessoas. Antes a gente só conhecia seu relacionamento com Daisy, a “melhor amiga” que estuda na mesma escola. Com Davis, a gente passa a ver seu relacionamento amoroso, e como também pode ser mais uma fonte de tensão para Aza.

Davis e Aza são amigos desde pequenos, mas se afastaram com o passar dos anos. A princípio o ressurgimento de Aza na vida de Davis gera toda uma suspeita se é por conta da recompensa por informações sobre o desaparecimento de seu pai, ou por conta da amizade deles mesmo. (É total pelo dinheiro, tudo motivado pela ganância da Daisy… tive probleminhas com ela >o<) Mas reconectar com Davis traz sentimentos que Aza não percebeu que existiam e também toda uma série de problemas a serem desenvolvidos por culpas de abraços, beijos, e interações que namorados costumam ter.

De certa forma, todos os personagens com que ela interage são “quebrados” à sua maneira. Mas perto de Aza, eles conseguem passar uma normalidade que a menina não consegue alcançar. Davis é o menino rico mas que cresceu sem nenhuma demonstração de amor paterno; Daisy é a menina pobre que vive “à sombra” da amiga complicada e difícil; Mychal é o artista que quer encontrar seu espaço e conquistar o coração da amiga; a mãe de Aza tem que lidar com o sofrimento de ter perdido o marido e não conseguir “controlar” os distúrbios da filha…

“(…) No fundo ninguém entende o que se passa com o outro. Está todo mundo preso dentro de si mesmo.” p. 228

A única personagem com quem eu não consegui conectar, e não conseguir gostar até o fim, foi Daisy. Eu não consegui acreditar no amor que ela tanto afirma sentir por Aza. As duas passam por situações que, pra mim, são completamente imperdoáveis. Mas provavelmente eu estava tão envolvida com os problemas da Aza, e tomei tanto as dores da menina, que EU não poderia perdoar as atitudes de Daisy ao longo da história. Porque EU não sou a Aza, e a Aza acredita que ela é uma pessoa tão ruim que, bem, mereceu tudo o que acontece, e continua a amizade com Daisy.

Talvez eu estivesse me refletindo tanto na Aza que eu esperava dela reações que eu teria no lugar dela. Mas sei lá. Eu não sou uma pessoa intrinsecamente boa, então acho que faz mais sentido toda a construção do relacionamento das duas, do que minha visão de como deveria ser.

“É como se, quando eu olhasse para mim mesma, não visse nada definido… só um monte de pensamentos, atos e contextos. E muitos na verdade nem parecem meus. Muitos pensamentos eu não quero pensar, muitas coisas eu não quero fazer, é mais ou menos isso. Quando procuro o que eu sou, nunca encontro.” p.228

Tartarugas até lá embaixo não é um livro feliz. É o livro que, pra mim, conseguiu emular o que é a realidade de uma pessoa que sofre de algum tipo de doença mental. Foi, sim, um livro cheio de citações e frases pseudo-intelectualóides, mas que foi muito mais do que isso pra mim. E eu agradeço ao John Green pela forma delicada e gentil que ele conseguiu escrever a história de Aza.

“O problema dos finais felizes é que ou não são realmente felizes, ou não são realmente finais, sabe? Na vida real, algumas coisas melhoram e outras pioram. E aí a gente morre.” p. 258

Agora eu só preciso de algo feliz ou fantástico pra me tirar dessa bad vibe da vida real.


Até a próxima! o/

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Parceria com a Editora Intrínseca

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