resenha

Aniquilação – Jeff Vandermeer

24 nov 2017
Informações

Aniquilação

Jeff Vandermeer

intrínseca

série Trilogia Comando Sul #1

208 páginas | 2014

4.25

Design 5

História 3.5

14

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Aniquilação, o primeiro livro da trilogia Comando Sul, apresenta um grupo de quatro mulheres enviadas para a Área X, um lugar incompreensível e isolado do restante do mundo há décadas, onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Elas fazem parte da décima segunda expedição ao local, cujos objetivos são explorar o terreno desconhecido, tomar nota de todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não se contaminarem. Uma missão mortal, visto que todas as expedições anteriores tiveram resultados assustadores, como suicídios em massa, tiroteios descontrolados e casos de mudança de personalidade súbita seguidos de morte por câncer. As mulheres partiram para a Área X esperando o inesperado… e foi exatamente isso que encontram.

Design

Eu simplesmente adoro quando a Intrínseca lança livros em seu formato “petit”. <3 No caso de Aniquilação faz todo sentido, principalmente porque o livro só tem 208 páginas.

O projeto gráfico da capa é uma adaptação do original com algumas sutis mudanças. O título em português não tem a mesma quantidade de letras do que em inglês, então, para ocupar o espaço da letra ausente, na nossa capa tem uma libélula nojenta a mais. Ah vai, essas ilustrações são BASTANTE nojentas. Eu já tenho um preconceito enorme com a natureza em geral, imagina ela deturpada pela cabeça de algum artista maluco?! >o<

Se você reparar, no caule dessa orquídea bizarra tem uns olhos. TEM OLHOS NA ORQUÍDEA, PUFAVO! Bem… Fora esses elementos ilustrativos, a capa de Aniquilação é basicamente tipográfica, e a mistura dessa fonte slab-serif super bold (que parece até demibold) no título, e um outra fonte sans-serif condensada no nome do autor e da série ficou muito bonito! A fonte slab até me lembra aqueles posters de “procurados” do velho oeste, sabe?

Eu gostei bastante do padrão cromático dessa capa. Ela tem uma mistura de um amarelo doentio e pálido, com um amarelo/verde marcador de texto, que cria um contraste um tanto estranho mas que tem tudo a ver com o clima do livro. É como se fosse a natureza bizarra e assustadora invadindo a monotonia sem graça da vida dos seres humanos.

A capa também é bastante correta, sem nenhum elemento concorrendo com toda a estranheza gerada! Só ficou faltando a marquinha da Intrínseca, que sempre costuma ter algum tipo de alteração para entrar no clima da arte. De acabamento diferenciado em toda a ilustração existe uma linha de contorno com uma tinta metalizada. Eu acho que não é hot stamping, mas confesso que não estou com muita certeza… Além disso, tem verniz localizado no título e no nome do autor.

Na lombada e na quarta capa existe a presença ainda maior da natureza bizarra do livro. O título está todo envolvido por vinhas na lombada, e também é o único lugar onde aparece a logo da Intrínseca. Não tem marcação de número do volume, mas ele aparece tanto na capa quanto na quarta-capa, então tá ok.

Nela há um trecho da ilustração que vai aparecer completa na interna da capa, mostrando toda a exuberância perturbadora da floresta da Área X. Não tem uma sinopse propriamente dita, mas o trecho selecionado para vender o livro é intrigante o suficiente para você abrir e ler as orelhas.

Comentei da arte na interna da capa, mas se você tiver uma oportunidade, abra o livro só para ficar levemente perturbado com essa ilustração. É a mesma dos dois lados do livro. Aí você começa a folhear e dá de cara com um javali na folha de rosto. XD

O livro é dividido em cinco grandes capítulos e apesar da abertura ser relativamente simples, ela está completamente integrada com a capa ao usar uma fonte slab-serif que tenta parecer com a do título. Essa mesma fonte é usada na capitular do capítulo e no rodapé das páginas. Aqui temos uma coisa que eu não reparei durante a leitura, mas o título ocupa toda a área das páginas esquerdas/pares e não aparece o número! Você só tem numeração de páginas nas páginas direitas/ímpares. Curti!

O miolo é muito bonito. Como não tem informações no cabeçalho, que estão no rodapé, o topo da página fica bem arejado. A ocupação da página pela mancha gráfica é muito boa e elegante, e a fonte usada é bem legível e gostosa de ler. Eu já vi a Elektra ser usada em outros projetos gráficos da Intrínseca, e é uma das minhas favoritas nos livros da editora.

Último comentário sobre o projeto gráfico vai para uma singela folha de “samambaia” usada para fazer as quebras de assunto ou de raciocínio ao longo dos capítulos.


História

Quando terminei Aniquilação, além da sensação de “WTF o que acabou de acontecer nesse livro?!”, eu tentei categorizar a história em algum dos gêneros conhecidos.

Mas não era uma fantasia “clássica”. Também não era um sci-fi, pelo menos não o que eu espero de uma ficção científica, com conceitos de evoluções e desenvolvimento tecnológico e da própria ciência. Além disso, tinha uma pegada sobrenatural envolvendo toda a narrativa da Bióloga…

Então o que poderia ser Aniquilação?! Já ouviu falar de Weird Fiction/Ficção Estranha?

É um subgênero da ficção especulativa (onde entram a fantasia e a ficção científica como grandes guarda-chuvas) que surgiu no final do século 19, início do 20. Ela é diferente desses gêneros porque mistura sobrenatural, com elementos míticos e científicos. Grandes autores que são famosos por suas obras dentro da Weird Fiction são Edgar Allan Poe (o moço do Corvo) e H.P. Lovecraft (o moço do Cthulhu).

Uma definição que o Lovecraft deu para tentar definir o subgênero foi a seguinte (traduzido pelo google e adaptado porcamente por mim do artigo da Wikipedia):

“O verdadeiro conto estranho tem algo mais do que assassinato secreto, ossos sangrentos ou o fantasma do lençol preso a correntes, como define a regra. Deve estar presente uma certa atmosfera de medo ilimitado e inexplicável das forças externas e desconhecidas. E deve haver uma dica da concepção mais terrível do cérebro humano, expressa com uma seriedade que a torna o principal assunto: uma suspensão ou derrota maligna e particular das leis fixas da Natureza, que são nossa única proteção contra os assaltos do caos e dos demônios do espaço.”

E é bem isso que a gente sente quando está acompanhando a história da Bióloga ao longo de Aniquilação. Não há uma explicação do que é e quando surgiu a Área X além do fato que ela está ali há pelo menos 30 anos e que já foram enviadas 11 expedições antes da que a Bióloga faz parte.

Toda a história gira em torno da estranheza da Área X, das conspirações em torno do lugar, das expedições mal sucedidas, da organização governamental ultra secreta que comanda todas as pesquisas. Da desconfiança entre as personagens, do volume mínimo de informações reais que elas têm sobre para onde estão indo, no que realmente podem acreditar e no que realmente estão se metendo.

Quem conta a história é a Bióloga. Ao que parece, estamos lendo o diário que ela produziu e deixou na Área X durante sua estadia conturbada, junto com a Psicóloga, a Antropóloga, a Topógrafa. Nenhuma delas tem nomes, todas foram retiradas de suas particularidades e personalidades de forma que suas vidas do lado de fora não interferissem nas tarefas e atividades que deveriam realizar durante a expedição.

“Eu lhes diria os nomes das outras três, se isso tivesse alguma importância, mas apenas a topógrafa vai durar um ou dois dias. Além disso, nos recomendaram com insistência que não usássemos nossos nomes: ali, deveríamos estar focadas na missão e ‘tudo que fosse pessoal deveria ser deixado para trás’. Os nomes pertenciam ao lugar de onde viéramos, e não a quem nos tornamos quando transplantadas para a Área X.” (p. 13)

Você lembra da sensação de ver os episódios de Lost, com toda sua estranheza e situações inexplicáveis que aconteciam com os personagens? Aniquilação se aproxima e extrapola essa sensação.

Coisas estranhas começam a acontecer com as personagens depois de alguns poucos dias na Área X, e a mais afetada de todas é a própria Bióloga. Só que a gente não consegue saber se toda a estranheza tem um fundo sobrenatural ou científico.

Como a história é contada pelo viés da Bióloga, temos só a experiência dela para tentar entender QUITACONTECENU! Ao mesmo tempo que ela consegue ser bastante analítica e racional em algumas descrições de acontecimentos, em outros momentos ela beira a poesia para falar de alguma experiência modificadora de sua vida.

Ao longo dos cinco capítulos (é, o livro é bem curtinho), a Bióloga conta de uma forma um tanto fragmentada um pouco do seu passado, e assim mostra como tudo pelo que ela passou definiu sua decisão de ser uma voluntária na expedição da Área X.

Junto com ela, os dias nesse lugar vão ser tensos, angustiantes, aterrorizantes. Você vai ficar sem entender se tudo o que está acontecendo tem a ver com algum erro da humanidade, com algum desígnio divino ou demoníaco, com algum tipo de vingança da natureza, ou sei lá, atém mesmo com ETs. Mas você vai junto com ela em todos os momentos para tentar entender “o brilho”. Para saber o que vai acontecer com as outras participantes. Para tentar entender qual é a função da Área X. E para finalmente encontrar o Rastejante!

Descobrir o que significa o Aniquilação do título pelo menos foi muito assustador.

Foram as 208 páginas MAIS LOUCAS que li nos últimos tempos, acho que só não foi mais bizarro do que Selva de Gafanhotos. Eu virava as páginas na expectativa de existirem explicações. Eu queria ter a experiência de entender a loucura da Área X. Mas no fim das contas, Jeff Vandermeer acabou sendo um Josh Malerman no quesito de ter uma put@ trama e não entregar o que eu queria ler.

Tá que eu provavelmente não devo ser o real público de nenhum dos autores. Eu sou uma pessoa naturalmente control freak, e Aniquilação me tirou completamente o controle do que acontecia com os personagens ou com a história. De qualquer forma confesso que Vandermeer vai me fazer ler os próximos livros.

Eu queria fazer um paralelo aqui com a trilogia Silo. Hugh Howey conseguiu em seu primeiro livro construir um universo completamente coeso e extremamente interessante, assustador e envolvente. Acho que era um pouco disso que eu estava esperando aqui em Aniquilação. Vandermeer me deixou com o bichinho da curiosidade, mas não chegou nem perto da satisfação que foi ler Silo.

Outro motivo que tive para ler Aniquilação é que ano que vem sai o filme com a Natalie Portman, então eu queria ir para o cinema sabendo o que me esperava. Quer ver se a história te interessa? Olha o trailer aqui para você!


Até a próxima! o/

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Parceria com a Editora Intrínseca

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