resenha

Todos Contra Todos – Leandro Karnal

16 out 2017
Informações

Todos Contra Todos

Leandro Karnal

LeYa

série ---

144 páginas | 2017

4.25

Design 3.5

História 5

12

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Leandro Karnal derruba o mito do brasileiro pacífico. “Só eu e você, caro leitor, cara leitora, não odiamos nem somos violentos, muito menos preconceituosos”, diz Karnal. Uma brincadeira irônica para mostrar o quanto transferimos para o outro o que temos de ruim. Um livro polêmico, provocativo e instigante no qual ele afirma que o ódio é um dos espelhos mais poderosos para olharmos nosso próprio rosto. Que a maldade é tão próxima do ódio quanto da inveja.

Em tempos de coxinhas contra petralhas, xenófobos contra imigrantes, o novo feminismo e os movimentos LGBT, em tempos do politicamente correto contra os seus críticos mais mordazes, Leandro Karnal mostra que a história e a realidade revelam um lado sombrio do brasileiro que costumamos não reconhecer: somos violentos no trânsito, nas ruas, nos comentários das redes sociais e fofocas nas esquinas; somos violentos ao torcer por nosso time e ao votar; somos violentos cotidianamente.

Em “Todos Contra Todos”, Leandro Karnal combina as características que o transformaram no historiador mais pop do Brasil: erudição e leveza, profundidade e humor. Elas se unem nas páginas deste livro para serem saboreadas pelos leitores. Todos contra todos escancara a polêmica das palavras agressivas, a natureza das reações raivosas dirigidas ao outro e o porquê de escondermos de nós mesmos as pequenas e grandes maldades do dia a dia.

Design

Curti essa subversão do lema da bandeira, sabe? Já faz tempo que ninguém acredita mesmo em “ordem e progresso”, então faz mais sentido que “o ódio nosso de cada dia” fique no centro do círculo de nosso principal símbolo pátrio.

E curti essa letra meio grunge caligráfica, que tem uma certa agressividade para escrever o nome do autor e o título do livro sobre a “placidez” da bandeira. É quase uma pixação sobre a arte! Mas queria que o título tivesse um pouco mais equilibrado em relação ao nome do autor. Não consegui entender muito bem por que tem um travessão antes do título. Ficou parecendo que a leitura do texto é “Leandro Karnal – Todos Contra Todos”.

De resto, a capa é bem simples, sem nenhum tipo de laminação diferenciada. Até parece que você está colocando a mão diretamente na tinta impressa. Tanto que as dobras das orelhas já estão um pouco gastas, como se fosse um livro mais antigo do que realmente é. Nisso a laminação protege por mais tempo a impressão.

Sobre o miolo… Assim, vou ser bem sincera, me perdoem, mas ficou parecendo trabalho de diagramação de início de curso de design. A escolha da Minion, que é uma fonte de serifas muito marcadas e lembra bastante a Georgia, deu uma cara de trabalho de faculdade pro livro. Como se fosse uma tese/tcc sendo entregue para conclusão de curso.

A fonte é muito grande, como se assim fosse pra gerar mais páginas. A mancha na página é até bonita e equilibrada com as margens, mas colocar as informações de cabeçalho no rodapé, aqui, não ficou bem. Ainda mais com a fonte italizada.

O que eu realmente gostei foram os olhos que ocupam página inteira sobre chapada preta, com frases marcantes dentro do assunto tratado no capítulo. Acabam virando marcas de informações mais fortes e impactantes que você pode sempre recorrer quando precisa citar algum texto do livro.

As citações que uso ao longo da resenha aqui embaixo são dessas páginas especiais.


História

Uma das coisas que mais me perturbam desde que eu cheguei à idade adulta (oficialmente, não mentalmente) é quanto ódio eu consigo sentir em um curto espaço de tempo, em um único dia.

É muito ódio que cabe em um pequeno corpo de 1,64m. E não é um sentimento muito maneiro de se sentir, sabe? Ódio é um negócio grande, escuro e físico, que dá um aperto no estômago, faz você contorcer os dedos em garra, faz você cuspir e rosnar.

E esse ódio todo ficou ainda mais fácil de ser disseminado desde a invenção das redes sociais.

Você já parou pra pensar em quantas redes sociais está cadastrado e ativamente mantém atualizada? É Facebook, Twitter, Instagram, Tumblr, Snapchat (pra quem ainda usa), LinkedIn… É muito espaço virtual e anônimo para todo mundo despejar suas merdas. E é muita merda sendo despejada como verdades absolutas.

Não sei bem o que eu esperava encontrar em Todos Contra Todos. Conheci Leandro Karnal em algum vídeo de suas palestras que foi compartilhado na minha timeline do Facebook. Ou pode ter sido em algum vídeo sugerido pelo próprio YouTube. Se você parar pra pensar, as possibilidades de ter chegado ao Karnal são imensas, e talvez, nem tenha tanta importância.

O que importa mesmo é que descobri Karnal, e foi interessante ouvir esse professor de história falando “verdades” que eram “verdades” pra mim também. E o mais legal foi ter chegado ao final do livro com a sensação de que precisava começar de novo, porque eu provavelmente precisava ser impactada por essas verdades de novo.

Isso é importante ser dito. Karnal é um professor, mas ele não faz com que seu livro seja fácil de ler. Você precisa de atenção. Você precisa estar ali, de corpo e mente presentes para realmente aproveitar tudo o que o livro tem para te oferecer.

Assim, eu confesso que ainda não sei se o livro me fez bem. Não sei o que eu estava procurando nas palavras do Karnal, mas pra uma pessoa naturalmente copo meio vazio, ter suas expectativas negativas de socialização afirmadas ao longo das páginas não faz muito bem para o espírito.

Eu só ia passando as páginas e assentindo com a cabeça e pensando “é… é tudo uma merda mesmo. Cadê o tsunami? Cadê o meteoro?”. O serumano é uma coisa que… putz… nem dá.

Karnal passa por várias etapas da nossa sociedade e das “verdades absolutas” que os brasileiros acreditam sobre si mesmos. Que aqui não tem guerra e nós somos um povo super legal! MENTIRA! A gente é bbk e idiota em níveis tão profundos que nem sei!

Que brasileiro é pacifista e que ninguém é racista. MENTIRA de novo. A gente é racista até a ponta do cabelo e ainda vai ter que existir muito trabalho e esforço de várias camadas da sociedade para conseguir alcançar algum tipo de igualdade.

“Quanto mais frágil a sociedade julga ser uma pessoa, mais a atacará. As mulheres negras sofrem ainda mais do que as brancas. Misoginia e racismo são um cruzamento desastroso.” (p.57)

Sabe o lance da rede social? Então. Elas são um dos principais facilitadores da bostalhança desvairada da internet. O “surgimento” das polarizações burras, do “nós contra eles” (sem nem saber direito quem são os eles), das certezas absolutas sem comprovações nenhuma que geram um ciclo infinito de ódio entre todos os envolvidos.

“A internet não criou os idiotas, mas o ataque anônimo nas redes deu ao ódio do covarde uma energia muito grande. Deu-lhe a proteção da distância física e do anonimato.” (p.110)

“Os males imperam porque a natureza humana é regida pelo egoísmo e pela autopreservação. O homem não possui uma disposição natural para a vida em sociedade.” (p.66)

Karnal fala muito também do ódio advindo do machismo. O ódio contra o feminino. O ódio contra as minorias LGBTQIA (e provavelmente outras letras que eu não devo conhecer). E envolve tudo isso no ódio que vem das diretrizes e crenças políticas de cada um.

“A violência contra a mulher é histórica e cultural e deve aumentar à medida que a consciência feminina trouxer essa questão cada vez mais à tona para debate.” (p.53)

E o ódio que vem de discordâncias por conta de religião. Não quero nem entrar nessa seara, porque é daquelas sem fim e taí desde o início dos tempos.

“Se minha vida é protegida por deus e atentada pelo demônio, se o mal vem do demônio, e o bem vem de deus, a minha culpa é diminuída. Sou só um joguete nesse xadrez celeste.” (p. 71)

Tá vendo que o fundo do poço da bosta do ódio nem sequer chegou, e sempre tem mais coisa pra descobrir e aprofundar ainda mais?!

Mas sim, acho que eu esperava um pouco de esperança no fim. Algo mágico e fantástico que fosse a solução para um povo tão… tão… tão. Só que né. Acho que o Karnal também é copo meio vazio, e ele não tem uma visão muito positiva pra compartilhar com a gente. É aquele mantra de sempre: o futuro é das crianças, nossas próximas gerações.

“Para quebrar a cadeia do ódio, a primeira tarefa é para de ensiná-lo às crianças. Interromper esse fluxo de ódio exige interromper a educação do ódio.” (p.139)

Esperemos que sejam de pessoas melhores dos que TODOS que estamos aqui agora. =/

Se você nunca ouviu o Karnal falar, aqui tem uma entrevista que ele deu no Roda Viva, e tem muita coisa interessante para te fazer pensar. Ou sentir ódio. Vai que.


Até a próxima

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