resenha

Apenas uma Garota – Meredith Russo

15 ago 2017
Informações

Apenas uma Garota

Meredith Russo

Intrínseca

série ---

240 páginas | 2017

4.75

Design 5

História 4.5

14

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Prestes a entrar na vida adulta, Amanda Hardy acabou de mudar de cidade, mas a verdadeira mudança de sua vida vai ser encarar algo muito mais importante: a afirmação de sua identidade. Tudo que ela mais quer é viver como qualquer outra garota. E, embora acredite firmemente que toda mudança traz a promessa de um recomeço, ainda não se sente livre para criar laços afetivos. Até que ela conhece Grant, um garoto diferente de todos os outros. Ela não consegue evitar: aos poucos, vai permitindo que Grant entre em sua vida. Quanto mais eles convivem, mais ela se sente impelida a se abrir e revelar seu passado, mas ao mesmo tempo tem muito medo do que pode acontecer se ele souber toda a verdade. Porque o segredo que Amanda esconde é que ela era um menino.

Em seu romance de estreia, Meredith Russo retrata o processo de transição de uma adolescente transexual, parcialmente inspirada em suas próprias experiências. Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação.

Design

Gosto de capas escuras. Principalmente porque eu entendo que as áreas iluminadas, aonde acontece o maior contraste, é o foco e a fonte principal da informação da arte.

A modelo é o foco. A modelo é apenas uma garota em um fundo escuro. E é impressionante como a capa fica ainda mais forte depois que você entende o contexto do título e da história.

Essa é uma daquelas capas super simples, mas supre bonitas e fortes. Não tem nem o símbolo da editora, porque o título, a autora e a garota são tudo o que você precisa para comprar o livro. Só uma capa bonita e uma fonte sans-serif branca em caixa alta.

A modelo aparece de novo na quarta capa, que apesar de não ter uma sinopse, traz uma frase forte o suficiente para te fazer abrir o livro e ler a orelha.

O miolo começa relativamente simples, replicando a ordenação do título na falsa folha e na folha de rosto. Os capítulos são numerados e a mancha gráfica tem uma ótima ocupação na página. Aqui a fonte que se utilizou foi a que eu mais gosto nos projetos gráficos da Intrínseca, que tem uma ótima legibilidade e cria um bom ritmo de leitura.

As informações que normalmente ficariam no cabeçalho dividem espaço com o número de páginas no rodapé, e é uma prática que eu tenho visto e gostado.

O diferencial no projeto de Apenas Uma Garota aparece nas páginas de flashback, quando Amanda conta sobre seu passado como Andrew. Aqui a mancha é a mesma nas páginas, os elementos estão posicionados nos mesmos lugares. Mas no lugar do número de capítulo está a data do acontecimento daquele trecho.

Além disso, as páginas são todas com uma chapada de cinza, diferenciando fisicamente aquele capítulo de todo o resto do livro. São como pedaços de uma outra pessoa, encaixados ao longo da história que está sendo contada nas páginas normais. Ficou muito bonito, e criou uma certa quebra visual nas páginas quando o livro está fechado.


História

Sou de um tempo em que a gente só existia em pares opostos. Homem e mulher. Heterossexuais e viados/sapatão. Um tempo em que não havia respeito quando se falava em opção sexual.

Falando assim parece que sou muito velha. Mas do alto dos meus 36 anos, acredito que MUITA coisa mudou em pouco mais de 10 anos.

Existe uma sopa de letrinhas para tentar mostrar para a sociedade qual sua orientação sexual. E existem mais um monte de termos para definir sua identidade de gênero. E são realidades que ainda me confundem em sua complexidade e diferença do mundo binário normativo em que eu nasci.

Não acreditem que eu sou preconceituosa (mas provavelmente sou em diversas coisas que ainda não entendo). Existem sim algumas barreiras que eu preciso transpor, informações que eu preciso pesquisar e entender. Mas particularmente, eu fico feliz que as pessoas possam ter a liberdade de se expressar e viver de acordo com suas próprias verdades de gênero e de opções sexuais.

Eu sou uma mulher hétero cisgênero, me esforçando para sair da normatividade. E acredito que eu esteja conseguindo, sendo mais aberta e receptiva. O mais importante é que livros como o da Meredith Russo, ou da Becky Albertalli, são importantes para que pessoas hétero ou pessoas cis, como eu, conheçam a realidade de outras pessoas que não são como eu.

Depois disso tudo, podemos conversar sobre Apenas Uma Garota e Amanda.

Primeiro de tudo, um livro que nas primeiras 20 páginas ativa meus gatilhos, e me deixa triste e com os olhos cheios d’água, tem tudo pra ser destruidor de corações. Só que não.

Acho que Meredith quis impactar o leitor com pensamentos fortes e depressivos de Amanda logo no início para que acompanhar sua jornada de se encontrar e se (re)descobrir de certa forma fosse uma redenção para a personagem e para o leitor.

A gente acompanha o presente de Amanda, depois que ela passou pela transição de gênero (me perdoem se eu utilizar algum termo errado durante a resenha). Ela quer tentar um novo começo. Quer a oportunidade de estar em um lugar onde ninguém sabe de seu passado. Em que ela não seja ameaçada e agredida (física e emocionalmente) por ser quem é.

Amanda quer ter a oportunidade de ser a mulher que sempre soube que era, desde muito pequena. Ao mesmo tempo que precisa aprender a ser mulher em uma sociedade que ainda nos tem em muita baixa conta. Em que pensamentos machistas e misóginos ainda guiam homens e mulheres por aí.

De certa forma, antes da transição, Amanda não tinha a preocupação de ser mulher e poder ser violentada, ameaçada, desmerecida, só por seu gênero. Só que ao longo da história a gente entende que, mesmo com o risco que corre ao se tornar mulher, Amanda se sentia “errada” na pele e no corpo de Andrew.

Amanda conta em primeira pessoa os seus dias na nova escola, na nova cidade, morando com seu pai que ainda está se acostumando com a verdade que seu filho agora é sua filha.

Ao mesmo tempo, nas páginas cinzas espalhadas ao longo do livro, vemos trechos do passado de Andrew, não em ordem cronológica. Mas em uma ordem que faz sentido com o crescimento de Amanda ao longo da história.

Andrew foi espancado, humilhado, criticado por seu pai, seus colegas da escola, por pais de colegas. Isso foi tão pesado para ele que a única decisão que tem aos 15 anos é que ele não precisa de nada disso para viver. Que ele não precisa viver. E assim como Andrew, é provável que nunca tenhamos a oportunidade de conhecer a história de várias pessoas que não conseguem ser aceitas por suas verdades.

Na nova escola, Amanda é “disputado” por dois dos jogadores de futebol americano, faz amizade com três meninas ótimas e uma perturbada (porque sempre existe a perturbada fumante e drogada?), que de certa forma é a mais próxima de Amanda.

Mas é quando ela começa a se relacionar com Grant, um dos gatinhos que se interessa por ela, que eu fiquei um pouco na dúvida sobre qual seria a melhor conduta nesse caso.

Ainda estamos em uma sociedade machista, misógina, opressora e normativa. As pessoas não estão emocional e socialmente preparadas para respeitar o outro. Existe muito ódio pelo diferente.

Minha questão aqui é: Amanda (e qualquer pessoa trans) não deveria contar para uma pessoa que está se interessando romanticamente por ela que ela é trans?

Quero acreditar que isso não faria nenhuma diferença pra mim. Se ela é Amanda, uma mulher, não me importa realmente se ela nasceu Andrew. Mas não é assim para todo mundo, e acredito que é ainda mais difícil para o homens. Porque, afinal, se ele se relaciona com uma mulher que já foi homem, o que isso pode dizer de sua masculinidade? De sua certeza heterossexual? De sua macheza?

Eu quero acreditar que em um futuro próximo, nós vamos nos apaixonar por pessoas, não por sua apresentação de gênero, e não vai ser importante nos categorizar em hétero ou homo ou cis ou trans. Mas enquanto ainda não evoluímos a esse ponto, volto à minha pergunta: você não deveria ter o direito de saber que a pessoa com quem você está se relacionando é trans?

No próprio livro a mentora trans de Amanda diz que um relacionamento dela não vingou porque o seu parceiro queria constituir família, e isso Virginia não poderia construir com ele. Não seria melhor a pessoa ter o direito de saber, para decidir ou não ficar com uma mulher ou homem trans?

Ao mesmo tempo eu entendo que a verdade de Amanda é só dela, e não precisa ir espalhando para qualquer um. Virginia diz isso pra ela em um momento do livro. Que se ela nunca quiser contar pra ninguém, ninguém tem nada com isso. E eu concordo também. Mas ainda fico meio desgraçada da cabeça com todas essas coisas.

Sobre a vida de Amanda na nova escola, suas amizades, seu relacionamento com Grant, eu confesso que estava esperando o momento do “deu ruim”. Eu tava angustiada com um momento Carrie, a estranha, que poderia ou não acontecer. Não que eu quisesse que Amanda sofresse ainda mais do que a gente já acompanha em seus flashbacks. Nada disso! Mas por algum motivo, a gente sabe que a vida é uma bitch e sempre vem pra sacanear a gente de alguma forma.

Acho que eu ficaria feliz e satisfeita em um livro que a gente sabe que a Amanda é trans, e que ela passa feliz e faceira por ele todo, sem intercorrências e só com realizações e descobertas positivas. Mas assim eu acredito que não existiria o momento de redenção e de amadurecimento dos personagens. Muito menos do leitor, se você parar para pensar.

Além do que, não sei se refletiria uma realidade real e crível. Eu só não queria que Amanda sofresse.

Gostei de como Meredith Russo abordou toda a história de Andrew/Amanda. Gostei de ver como é notável sua mudança e amadurecimento; seus medos e suas coragens. Gostei de ver o desenvolvimento do clímax e a forma como todos os personagens envolvidos reagem aos acontecimentos.

Acho que o livro, mesmo em sua forma leve de conduzir um assunto complexo, conseguiu fazer com que eu, uma mulher cis hétero, me envolvesse, sentisse empatia, e tentasse me colocar no lugar de Amanda.

Agora, o livro não é panfletário ou doutrinário. Ele não entra em explicações psicológicas ou fisiológicas da coisa. E o mais importante pra mim foi a nota da autora, no final do livro, ser direcionada para todos os seus leitores, sejam cis ou transgêneros.

Na nota ela explica que decidiu contar a história de Amanda de uma forma mais “fácil” de ser aceitada e digerida por pessoas cis. Amanda é hétero, feminina, e bonita. Se entendeu como trans muito jovem, o que facilitaria sua transição. Fez uma cirurgia extremamente cara e conseguiu seus hormônios de forma legítima. Meredith explica que fez algumas escolhas e transformou em ficção para que funcionassem melhor na história.

E foi essa sinceridade que me envolveu em um cobertor quentinho e me fez ter certeza de ter lido uma história que Meredith queria que todos, todos mesmo, tivessem acesso e pudessem entender e se identificar.


Agora, eu não iria falar sobre isso, mas tem um assunto que costuma se repetir em YA contemporâneos em geral que me incomoda muito e eu sempre tenho dificuldade com ele. Bebidas alcóolicas e drogas.

Os dois não são gatilhos pra mim, mas tem um efeito físico muito agressivo de repulsa. Eu repudio fortemente bebidas e o uso de drogas, e me “agride” quando são inseridos em histórias para um público jovem, de forma a serem vistos como normais e aceitáveis.

Que é NORMAL um adolescente encher a cara, vomitar as tripas, e dormir sobre o próprio vômito, e no dia seguinte “estar um caco”.

Que é NORMAL um adolescente ter acesso fácil a maconha e fumar nos fundos da escola com o pessoal “descolado”.

Eu peço desculpas se você acha isso normal e aceitável. Sim eu sou certinha e bbk. Nunca usei nenhum dos dois, mesmo tendo vários motivos na adolescência pra ser uma alcoólatra e viciada.

E sim, eu sempre vou tirar pontos de um livro que tratar disso com leviandade ou como fato aceitável e normal na sociedade. Mesmo que todo o resto da história seja válido e informativo.


Até a próxima! o/

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Parceria com a Editora Intrínseca

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