resenha

As Chamas do Paraíso – Robert Jordan

14 nov 2016
Informações

as chamas do paraíso

robert jordan

intrínseca

série a roda do tempo #5

912 páginas | 2016

4.5

Design 4.5

História 4.5

Depois de uma perigosa jornada ao Deserto Aiel, Rand se consagrou como Aquele Que Vem Com a Aurora, conforme profetizado por seu novo povo. Ter um exército de homens e mulheres extremamente hábeis na batalha deveria ser uma vantagem, mas, conforme se apega aos novos aliados, o Car’a’carn, chefe dos chefes, se sente cada vez mais vulnerável às tramas de seus inimigos.

Enquanto isso, Nynaeve e Elayne perdem aliadas importantes e ganham uma poderosa inimiga. Após a expulsão de Siuan Sanche da Torre Branca, as duas Aceitas devem tentar encontrar as poucas Aes Sedais que continuam fiéis à sua causa. Porém, Moghedien está à espreita, determinada a capturar Nynaeve em sua teia.

Em As Chamas do Paraíso, Jordan aprofunda ainda mais seu criativo universo. Antigas instituições caem por terra e novas alianças se formam, pois o Dragão provoca mudanças por onde passa. Heróis lendários se juntam à história no novo volume de A Roda do Tempo, uma das mais extraordinárias séries já escritas.

Design

Esse foi o primeiro livro da série que apesar de ter um mapa lindo maneiro e show de bola, ele quase não me serviu de nada. Metade da história se passava em uma área do continente que ficou exatamente na dobra do livro. Era praticamente IMPOSSÍVEL de consumir a informação do mapa nessa posição.

Em se tratando de mapa, eu achava que dependendo de como eles fossem ilustrados, poderiam vir impressos no verso da capa + primeira orelha e nas guardas dos livros, sabem? Lá no começo mesmo, assim que você abre o livro. Ali, normalmente, existem poucas páginas para impedir você de abrir realmente o livro e a chance de você ficar com um pedaço da imagem “enforcado” entre dois blocos grandes de folhas é minúscula.

O mais lindo de tudo na verdade seria o mapa vir encartado de uma forma que você pudesse abrir para fora do livro. Tipo, só um lado do mapa estaria preso na lombada, com a outra metade ficaria dobrada e solta, prontinha para você abrir para fora do livro. Não sei se consegui explicar direito… Talvez uma imagem ajude. Achei essa aqui nas interwebs e poderia ser uma abordagem do que eu estou falando.

Mapas em livros de fantasiaFantasy Books Maps

Fora isso, já falei sobre o projeto gráfico no primeiro livro da série, então você pode dar uma olhada lá para saber minha opinião.


História

Acho que não tem muito jeito, vocês sempre vão me ver começando as resenhas dos livros do Jordan falando como é a melhor série da minha vida. Pois é, mais um 4.5 na série da Roda do Tempo que com certeza está ocupando o meu pequeno coração como meu top 3 de livros de fantasias da VIDA!

Tem pirotecnia, tem mulheres fortes e atuantes, tem heróis improváveis, relutantes, mas ativos, e tem romance! Não é só uma história de salvar o mundo, ou desenvolver os poderes de um personagem. É também uma história de desenvolvimento pessoal e interno dos personagens, e você consegue acompanhar isso.

Estou assumindo que se você vai ler essa resenha você já acompanha a série e quer ter uma opinião sobre o que você já leu, ou que não se importa com qualquer pequeno spoiler que possa aparecer ao longo do texto. Então vamos lá!

As Chamas do Paraíso continua a história seguindo basicamente dois pontos de vista principais: o grupo que está com Rand, agora já o dragão assumido e iniciando sua conquista para se preparar para a batalha final contra o Tenebroso; e Nynaeve, que está do outro lado do continente junto com Elayne, dando prosseguimento a sua perseguição (ou fuga) da Ajah Negra à mando do Trono de Amyrlin. Um aviso aqui: se você gosta do Perryn sinto muito, mas o personagem não aparece em nenhum momento na história. Ele deve estar curtindo a lua de mel, deixa o menino.

Mas temos 912 páginas aí para ocupar com alguns outros pontos de vistas de personagens que às vezes são secundários, mas que contam facetas da história que são importantes para o desenvolvimento de tudo o que está acontecendo. E como nenhum dos personagens principais estão com esses núcleos secundários, é responsabilidade deles darem continuidade à história. Então temos capítulos que Min está à frente e divide com Siuan Sanche (a antiga Amyrlin), outros que é Morgause (a mãe de Elayne), Matt, Elaida (a Vermelha que usurpou o Trono de Amyrlin), Gareth Byrne (um ex-comandante do exército de Morgause), Moghedien (uma das Abandonadas)… Às vezes é um capítulo só dentro do universo que existe no livro, mas é o suficiente para movimentar um lugar que ninguém está acompanhando.

RAND, O INÍCIO DO SEU DOMÍNIO E SEUS AMIGUINHOS
Rand precisa que todos os clãs dos Aiel aceitem que ele é o Car’a’Carn da profecia para que possa se preparar para enfrentar o Tenebroso. Mas um outro Aiel também foi marcado com os dragões dourados nos braços e agora Coulandin está indo em direção a Carhien para tocar o terror nos aguacentos. Rand precisa deslocar todos os seus seguidores em perseguição ao falso dragão, para dobrar o seu clã e destruir qualquer tipo de revolta contra seu direito profetizado.

No núcleo de Rand é interessante perceber que cada vez mais o jovem está tendo que lidar com sua dúvida de qual é a mulher de quem realmente ele gosta. Isso é algo que o perturba, essa indecisão entre Elayne, Aviendha e Min, e chega inclusive a assombrar seus sonhos. Quem diria que Rand tem sonhos nerds de que várias mulheres sejam interessadas por ele, não é mesmo? Rand safadinho querendo construir seu próprio harém. :P

Mas não são só sonhos molhados que preocupam nosso principal herói. Rand está cada vez mais poderoso, conseguindo tecer magias muito mais complexas e às vezes a ideia dessas urdiduras chegam de lugar nenhum. Ao mesmo tempo, Rand tem medo de que esteja lentamente perdendo o controle de sua mente, dando lugar aos delírios de Lewis Therin. Some-se a isso a mácula de saidin, que toda a vez que Rand utiliza o lado masculino do poder único, mancha ainda mais a sanidade do jovem dragão.

Junto com ele ainda temos Matt, com suas várias vidas passadas de batalhas atrapalhando o jovem de às vezes saber onde/quando realmente está. Para mim, Matt é o mais relutante de todos os personagens. Incrivelmente ele tem participações muito interessantes ao longo do núcleo do Rand e eu acho impressionante que de jogador mulherengo de uma vila dos cafundós, ele tenha se tornado um super guerreiro cheio dos paranauês com um bastão/alabarda. E isso antes mesmo de receber todo o conhecimento militar de suas vidas passadas…

Egwene também está por aqui, tomando conta de Rand para que ele não fique muito orgulhoso e metido (palavras da própria…) enquanto continua seu treinamento com as sábias Aiel sobre ser uma caminhante dos sonhos e de acessar Tel’aran’rhiod (sério! eu adoro o nome dessa dimensão dos sonhos!). Cada vez mais eu acho que Egwene está se tornando um exemplo de aes sedai, aquela mulher enigmática, envolta em mistérios e com planos secretos que só ela realmente sabe quais são. Ou não. Mesmo assim, nem ela ou Lan e Moraine tiveram grande participação nesse volume.

Inclusive, Moraine passa por uma situação muito importante e você nem sente tanto o acontecimento. A personagem está tão afastada do núcleo central nos últimos dois livros que você não tem mais um vínculo real com ela para ser realmente afetado por o que quer que aconteça… Uma pena. Eu gosto da personagem, ela meio que trazia uma coisa de conflito para a história que era ao mesmo tempo instigante e irritante.

NYNAEVE E SEU HUMOR INSUPORTÁVEL (que eu adoro odiar)
Do outro lado do mapa temos Nynaeve, Elayne, Tom e Juilin fugindo da Ajah Negra e de Moghedien, a Abandonada que Nynaeve enfrentou e venceu. No caminho elas ainda precisam tentar evitar os Mantos Brancos que estão caçando possíveis Aes Sedai; o Profeta que é um louco que está criando tumulto nas cidades onde passa, fazendo com que as pessoas passem a adorar o Dragão Renascido (ou morram); e os espiões da Torre Branca que podem estar atrás delas. Não está fácil para ninguém.

O interessante aqui é que Jordan começa a trazer um pensamento sobre o fanatismo religioso que passa a surgir em torno da volta do dragão renascido. Pessoas que levam a extremos sua crença de que Rand vai salvar o mundo enfrentando o Tenebroso, e que aqueles que não acreditam em sua volta são infiéis e deveriam ser mortos. Quero ver como o autor vai desenvolver esse plot do fanatismo em torno de Rand. Todo mundo sabe que em A Guerra dos Tronos a questão do fanatismo deu ruim no final…

No núcleo de Nynaeve (que incrivelmente é a personagem que eu mais gosto) o mais complicado de engolir foi a própria Nynaeve. Já comentei como a personagem é difícil em outras resenhas, e aqui, com ela realmente liderando a narrativa, fica ainda mais complicado de continuar gostando dela. Nynaeve tem uma visão maternal psicopata de que todos devem obedecer às suas ordens, e ela tem um relacionamento bastante conturbado com homens em geral.

Para mim, Nynaeve sempre teve essa força interior de mudança, de ser independente, uma das Sabedorias mais jovens de Dois Rios, que tinha suas opiniões respeitadas e acatadas por todos, que era até temida por algumas pessoas por seu temperamento forte e explosivo. Só que na verdade, ela acaba se tornando somente uma mulher chata e mandona, que quando não é obedecida, faz cara feia e fica puxando a própria trança, como uma criança mimada e grande. Para ela os homens são uns idiotas e imbecis que não sabe o que querem da vida e só tomam decisões erradas, enquanto as mulheres, quando não seguem os seus padrões ou expectativas, sempre estão erradas também.

Nynaeve tem dificuldade de assumir se estiver errada e de pedir desculpas, e isso é uma coisa com que ela luta ao longo de toda a sua parte da narrativa. Ela não dá o braço a torcer e quer sempre ter a última palavra. E mesmo que ela perceba que tomou uma decisão errada, suas desculpas são sempre com um finzinho para espezinhar os outros por não terem ajudado de alguma forma… Assim fica difícil de te defender amiga.

Enquanto isso, Elayne parece que vai ter uma posição muito importante no futuro, por ser uma das possíveis esposas de Rand, mas ela tem pouco espaço na história para crescer. Na verdade, entre as três aceitas ela parece ser a mais fraca e mais sem graça. E ela fica batendo de frente com a Nynaeve o tempo todo, o que torna o relacionamento das duas bem cansativo. Parece que elas competem para ver quem é de verdade a líder do pequeno grupo de viajantes. Por Elayne ser princesa de Caemlyn ela já tem todo aquele ar de superioridade e realeza… aí ainda tenta peitar a Nynaeve que nasceu com o rei na barriga e acha que é a única que está certa… Não dá filha.

CLÍMAX SÓ NO FINAL
Como a maioria dos livros anteriores, o autor cozinha a história ao longo das muitas páginas, deixando para criar o grande clímax, cheio de pirotecnias, realmente próximo do final. Pelo menos ele fez de um jeito que conseguiu juntar os dois núcleos principais, do Rand e da Nynaeve, mesmo estando a quilômetros de distância um do outro. Estou muito ansiosa para ler a continuação. A Intrínseca fez um post em seu blog falando sobre a experiência e desafios de editar uma série de fantasia tão longa quanto A Roda do Tempo. Vale a pena dar uma lida para entender o trabalho que eles têm lá.

BATENDO UM PAPINHO “FILOSÓFICO”
Muito bem, depois de todo esse textão eu ainda quero falar um pouco sobre o universo que o Robert Jordan criou e algumas decisões de sociedade que ele colocou na história.

Uma coisa que me incomoda desde uns livros para cá é a frequente “batalha entre os sexos”. O Poder Único é dividido em duas metades, uma feminina (saidar) e uma masculina (saidin) que juntas formam o poder da roda (pelo menos foi o que eu entendi até agora). Homens e mulheres só podem canalizar a metade correspondente ao seu sexo, e não conseguem perceber o poder único uns dos outros, só de pessoas do mesmo sexo. Tudo bem até aí.

O problema é a necessidade constante de criar uma certa disputa entre homens e mulheres. Mulheres (em geral, não só Nynaeve) sempre afirmam que homens são burros e imbecis, que pensam com os pelos do peito, só tomam a decisão errada… Enquanto os homens acham que as mulheres são misteriosas, cheias de segredos e planos secretos, que são impossíveis de entender. Acho interessante o conflito, mas até agora o autor só usa isso como desculpa para fazer com que os personagens de sexos diferentes não encarem de verdade suas diferenças, e só coloquem a culpa de não se entenderem na dificuldade de se relacionarem. =/

Outra coisa para refletir é a maneira como ele mostra e constrói diferentes formas de “harém” dentro da história. Explicando.

Para os Aiel, Jordan construiu uma sociedade quase matriarcal, que gira em torno da decisão das sábias e das senhoras do teto. É das mulheres também o direito de “pedir um homem em casamento”. Tudo bem até aí. A coisa fica diferente quando ele descreve um relacionamento poligâmico, onde uma mulher pode pedir um homem casado em casamento, se a atual esposa concordar. E para o homem “cheio de esposas”, fica o título de bom partido, o “bonzão”. O próprio Rand passa por essa questão de indecisão por três mulheres, e aparentemente, as todas estão tranquilas com isso, de dividir o dragão entre elas.

Agora, entre as Aes Sedai existe o vínculo feito com um Guardião, como a conexão que existe entre Moraine e Lan. Algumas Ajahs não acham necessário ter um Guardião, mas a Ajah Verde, considerada a Ajah da batalha, costuma realizar mais de um vínculo com diferentes Guardiões. Uma das Verdes que aparecem na história (e que eu não vou lembrar o nome…) chegou a ter três Guardiões ao mesmo tempo.

A questão aqui é que as outras Aes Sedai veem esses múltiplos vínculos de uma forma “invejosa” e muitas inclusive fazem certo slutshame com as Verdes por conta disso.

Meu ponto aqui é que eu acho ótimo esse empoderamento da mulher, a ponto de ela poder escolher o próprio marido (o que é raro em livros de fantasia), ou se vincular a vários Guardiões. Mas ao mesmo tempo eu não vejo porque o autor precisou criar essa diferenciação que, quando um homem tem muitas esposas ele é bem visto e cobiçado, mas se é uma mulher com muitos Guardiões, ela é desmerecida e agredida verbalmente por outras mulheres.

Acho que é muito importante esse tipo de análise, e espero que de alguma forma o desenvolver da história nos próximos livros melhore essa apresentação das duas culturas. E se isso não acontecer, eu fico feliz de ter, de alguma forma, conseguido perceber esse tipo de diferenciação no tratamento entre os gêneros. Esperando a próxima chaproca com ansiedade e paciência.


Outras resenhas da série


Até a próxima! o/

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