resenha

Alucinadamente Feliz – Jenny Lawson

23 maio 2016
Informações

alucinadamente feliz

jenny lawson

intrínseca

série ---

352 páginas | 2016

4.75

Design 4.5

História 5

Jenny Lawson está longe de ser uma pessoa comum. Ela mesma se considera colecionadora de transtornos mentais, já que é uma depressiva altamente funcional com transtorno de ansiedade grave, depressão clínica moderada, distúrbio de automutilação brando, transtorno de personalidade esquiva e um ocasional transtorno de despersonalização, além de tricotilomania (que é a compulsão de arrancar os cabelos). Por essa perspectiva, sua vida pode parecer um fardo insustentável. Mas não é.

Após receber a notícia da morte prematura de mais um amigo, Jenny decide não se deixar levar pela depressão e revidar com intensidade, lutando para ser alucinadamente feliz. Mesmo ciente de que às vezes pode acabar uma semana inteira sem energia para levantar da cama, ela resolve que criará para si o maior número possível de experiências hilárias e ridículas a fim de encontrar o caminho de volta à sanidade.

É por meio das situações mais inusitadas que a autora consegue encarar seus transtornos de forma direta e franca, levando o leitor a refletir sobre como a sociedade lida com os distúrbios mentais e aqueles que sofrem deles, sem nunca perder o senso de humor. Jenny parte do princípio de que ninguém deveria ter vergonha de assumir uma crise de ansiedade, ninguém deveria menosprezar o sofrimento alheio por ele ser psicológico, e não físico. Ao contrário, é justamente por abraçar esse lado mais sombrio da vida que se torna possível experimentar, com igual intensidade, não só a dor, mas a alegria.

Design

Alucinadamente Feliz é um daqueles que eu compraria só pela capa. Sério, um guaxinim alucinado em um padrão cromático deliciosamente peludo e outonal com direito a “chuva” de flocos de material holográfico? É praticamente um “shut up and take my money”. Acho até que entra para a lista de capas mais bonitas do ano. Acrescente ao fato que depois você descobre que esse guaxinim é real, empalhado, e “vive” na casa da autora… é um must buy!

Fora o atrativo visual do bichinho, a capa é bastante simples e elegante, com certa modernidade ao usar a fonte sans-serif em caixa alta nos elementos principais, combinada com uma fonte serif para a chamada. Obviamente tudo em branco para não competir com a harmonia cromática que a imagem de fundo já traz. Gostei da quebra aplicada na lombada, onde o fundo é uma chapada de vermelho, que é quase tão chamativa quanto o próprio guaxinim.

A quarta capa não me agradou tanto quanto todo o resto, acho que aqui o vermelho não funcionou muito bem, e ficou uma certa competição entre a cor e as fontes em bold, principalmente porque nesta família o estilo fica realmente muito pesado.

Fiquei me perguntando porque a Intrínseca faria orelhas tão grandes no livro, quando normalmente ela sempre faz do tamanho “normal”. E foi uma surpresa abrir a orelha e encontrar ilustrações na parte interna da capa! Totalmente dentro do conceito do livro e sobre uma das histórias alucinadas de Jenny. <3

O miolo é muito bonito, do jeito que a Intrínseca costuma fazer para o seus livros, com todos os elementos que eu sempre gosto de ver. Cabeçalho completo, mancha com fonte legível e agradável, ocupação de página, margens e entrelinhas balanceadas e adequadas. O legal também é ver que em alguns capítulos você consegue ter a sensação que está lendo uma “transcrição” de um blog para o livro, com mudanças no padrão gráfico, inserção de fotos e muitas caixas altas para marcar que a autora está, literalmente, gritando. Mas eu confesso que achei estranho algumas das fotos dentro do projeto de um livro tradicional. Elas são necessárias para o entendimento do capítulo, mas sabem quando você faz aquele trabalho de geografia, coloca imagens para ilustrar e elas não integram direito o conteúdo da página? Ou porque a qualidade não é tão boa, ou as dimensões não são adequadas… sei lá. Ficou bom, mas ficou estranho.


História

Se você é frequentador do blog, já percebeu que por aqui só aparecem livros de ficção. Normalmente de alguns gêneros específicos, porque não costumo sair muito da minha zona de conforto. Se você não sabia, bem, agora já sabe. :P

Fantasia, sci-fi, romance, sobrenatural, um ou outro thriller ou policial. Mas nunca um livro de não-ficção. Acho que eu não gosto da realidade real. Costumo fugir de biografias, relatos, poesias, memórias. Eu prefiro ser arrebatada para uma outra realidade, e mesmo quando leio livros contemporâneos, são vidas diferentes ou “inalcançáveis”.

Mas eu gosto muito de ler blogs/textos de pessoas que são, digamos, diferentes. Que tem uma visão uma pouco mais realista/depressiva/pessimista da vida, porque é basicamente assim que eu a enxergo também. Duas blogueiras são minhas favoritas ultimamente e eu sempre estou atrás das últimas postagens que elas fizeram.

Mareska Who e Red Shoes on a Thurdays são minha companhia nessa (nova) paixão por blogs de slice of life. Acompanho a Mareska e a Raquel em seus dias “sofridos”, em seus choques de realidade, em comentários banais sobre assuntos insignificantes. Mas o que me faz voltar sempre é a voz que elas colocam em suas postagens, o tom depressivo e auto-depreciativo que ao mesmo tempo é embalado em um humor ácido, sarcástico e delicioso.

Então, quando a Intrínseca anunciou Alucinadamente Feliz, um livro de não-ficção, eu não me interessei por ele inicialmente. Mas esse desinteresse durou os 30 segundos que eu demorei para ler a sinopse e me apaixonar por Jenny Lawson. Afinal, se uma pessoa diz que é louca e tem problemas mentais, e se propõem a escrever um blog, e posteriormente livros, ela deve ter coisas interessantes para falar. Além disso, a chamada do livro é “um livro engraçado sobre coisas horríveis”.

Eu já tive minha cota de coisas horríveis na vida, assim como provavelmente a maioria das pessoas durante a adolescência. Algumas dessas coisas horríveis provavelmente ainda me perseguem até hoje. Então ler sobre as coisas horríveis de outra pessoa, e como ela lida com elas, me pareceu uma ótima opção de leitura.

Foi uma das melhores experiências que tive na vida. Não digo que agora vou passar a procurar mais livros de não-ficção, mas com certeza, leria qualquer coisa que Lawson escrevesse. Alucinadamente Feliz é uma coletânea de textos, como se fossem várias crônicas da vida da autora (os slices of life que eu comentei lá em cima), envolvidos exatamente na voz que eu comentei que adoro para esses tipos de assuntos difíceis, como o que Lawson trata.

A autora afirma no início do livro que é “depressiva altamente funcional com transtorno de ansiedade grave, depressão clínica moderada e distúrbio de automutilação brando proveniente de um transtorno do controle de impulsos. Tem transtorno de personalidade esquiva (…) e um ocasional transtorno de despersonalização (…). Tem artrite reumatoide e doenças autoimunes. E, (…) coisas como um TOC moderado e tricotilomania.” (p. 25-26). Por isso ela já avisa no começo que o livro é para os de estômago forte.

Sim, existe um ou outro capítulo que são tensos e angustiantes porque ela consegue colocar no papel todo o sofrimento que ela está passando em uma de suas crises de ansiedade, por exemplo. Mas todos os outros, por mais que estejam envolvidos por todas as compulsões que Lawson tem, são cheios de humor e passagens engraçadas que você quase não percebe que está lendo sobre um tipo muito específico de sofrimento de uma pessoa. Porque ela faz piada da própria condição e da própria doença, o que é triste e extremamente engraçado em algumas situações.

Em um capítulo específico eu tive uma crise de riso, de ficar com dor no estômago, e chorar convulsiva e incontrolavelmente. Tudo bem que quando meu marido me pediu para ler o que eu estava achando tão engraçado, o efeito foi um pouco menor, mas mesmo assim, ainda tirou algumas lágrimas de riso.

Engraçado que em vários momentos eu tinha que me lembrar que estava lendo sobre uma pessoa de verdade. Lawson quase parece um personagem de tão inverossímil que algumas passagens parecem. É difícil de acreditar que essas coisas podem acontecer (e acontecem) com uma pessoa de verdade. Se cortar, arrancar os próprios cabelos para se sentir bem, travar de terror por ter que fazer o percurso de casa até o aeroporto, não ter controle dos próprios pensamentos (depreciativos), e de seu cérebro tentar convencer a você mesmo que, talvez, quem sabe, não seria melhor deixar de existir. Não parece real, mas é. Acontece o tempo todo com a Lawson, e deve acontecer com milhares, milhões de pessoas no mundo todo.

Eu consigo identificar vários padrões da autora na minha própria vida, mas eu sei que não tenho problemas mentais. Eu só tenho tendências depressivas, tenho um certo grau alto de ansiedade e sou muito introspectiva. Mas acho que já desenvolvi meios próprios de lidar com algumas dessas características, e acho que muitas coisas que ela escreve no livro são formas de ajudar as pessoas que não tem ideia do que estão sentindo/passando/sofrendo podem ser tratados com ajuda médica.

Depressão e ansiedade não são frescura. Nunca deixe que ninguém diga isso para você! Perceber e entender que se está com essas condições é o primeiro passo para sair dessa, ou até, melhor dizendo, se estabilizar.

Eu AMEI o livro! Acho que todos deveriam ler, ter a experiência de ver dentro da cabeça de uma pessoa que sofre de uma doença que muitas pessoas menosprezam ou desprezam. E ver como ela tenta lidar com essas condições com humor e apoio das pessoas que a amam e entendem, ou que pelo menos tentam.

E a melhor frase do livro é do marido de Lawson. Em uma crise muito difícil que ela teve, de ir várias vezes para o hospital por conta de dores insuportáveis por conta da artrite, ela vira para seu marido e diz que acredita que a vida dele seria muito mais fácil sem ela. A resposta dele?

“Poderia ser mais fácil. Mas não seria melhor.” (p.338)

Leiam!


Até a próxima! o/

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2 Comentários

  • Responder Déborah Queiroz 26 maio 2016 at 09:53

    :O :O :O

    Dica anotada com sucesso. Simplesmente amei a dica obrigada :D

    ❥Blog: Gordices Literárias

  • Responder Rafael 25 maio 2016 at 11:40

    Excelente resenha, acabei de ler o livro e achei muito bom.
    Geralmente leio livros de ficção e estava procurando algo novo, depois de ler a crítica do Neil Gaiman sobre este livro, fiquei bem curioso.
    Posso dizer que não me decepcionei em nada, ao fim do livro você acaba se sentindo amigo da Jenny Lawson. Vou encomendar o primeiro livro dela: “vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu” publicado aqui no Brasil pela editora Gutenberg.

    naciadelivros.blogspot.com

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