resenha

Pequenos Deuses – Terry Pratchett

16 maio 2015
Informações

pequenos deuses

terry pratchett

betrand brasil

série discworld #13

308 páginas | 2015

3.75

Design 3

História 4.5

“Só porque você consegue explicar não significa que não seja um milagre.”

Religião é um assunto controverso em Discworld. Todo mundo tem sua própria opinião e até seus próprios deuses, que podem ser de todas as formas e tamanhos. Nesse ambiente tão competitivo, as divindades precisam marcar presença. E a melhor maneira de fazer isso certamente não é assumindo a forma de uma tartaruga. Nessas situações, você precisa, e rápido, de um assistente. De preferência alguém que não faça muitas perguntas…

“Esta sátira sobre a religião institucionalizada e corrompida sugere, com um humor ágil e intrigante, que o poder dos deuses talvez seja proporcional à crença de seus seguidores.” – The Independent

“A inventividade espetacular de Terry Pratchett faz da série Discworld um prazer incessante na ficção moderna.” – Mail on Sunday

Design

Sou fã de capas ilustradas para livros de fantasia, e sempre quis ter a série Discworld por causa de suas ilustrações. Só que, agora, com  um livro na mão, não sei se realmente gosto do estilo de Josh Kirby. Sei lá, talvez nas miniaturas das imagens na internet, eu me encantei mais com as cores do que com o traço do ilustrador, que é muito caricato e exagerado para os seres humanos. Funciona bem para animais, mas me incomoda nas pessoas. Não sei bem porque mas acho bastante “inglês” como se alguém pudesse categorizar ilustrações e associar a um país… :P Se bem que qualquer pessoa identifica olhos grandes = mangá = Japão…

Então eu não gosto da ilustração, mas isso não significa que a capa não seja legal. A Bertrand Brasil usou vários acabamentos “chiques” tudo-junto-agora e fez uma capa interessante. Verniz soft-touch na capa inteira, relevo seco com hotstamping no título e no nome do autor (tanto na capa quanto na lombada), verniz localizado na marcação do nome da série e no box de sinopse na quarta capa. Mas, o hotstamping não aguentou a gordura de minha pequena mão e o P já se foi, assim como pedaços de todas as outras letras do título. u.u Será que não dá para colocar verniz localizado sobre o hotstamping para protegê-lo de mãos destruidoras?

Para fechar a capa, além de não ter marcação de número de volume (imagina quando forem 46 livros para organizar na estante?!) eu acho que meu volume veio com algum tipo de refile errado, porque o posicionamento da logo da Bertrand está EXTREMAMENTE na borda da capa. Acho que na hora do corte o papel correu e a lâmina do refile passou por ele bem tortinha.

Pequenos Deuses - Terry Pratchet - detalhe

Hotstamping “gasto” no título e posicionamento da logo da editora na borda do livro

Na resenha de Sal eu falei sobre como o miolo dos livros do grupo Record me incomodam um pouco. A questão da fonte, posicionamento da mancha gráfica, margens… dá um pulinho lá para saber o que falei. Eu só tenho uma questão que me incomodou muito ao longo da leitura, e provavelmente vai ser “bbkisse” minha.

Brutha, o personagem principal da história, é o escolhido do Grande Deus e é o único que consegue conversar com a personificação de Om, em uma tartaruga. Até onde eu sei, tartarugas não falam, e pelo que eu entendi, Brutha ouvia Om dentro de sua cabeça, o bichinho não mexia a boca e saíam sons de lá. Então, para mim, não fazia sentido algum todas as falas de Om serem marcadas com travessão de diálogo. Inclusive ficava confuso em alguns momentos, quando não havia explicado quem estava falando, Brutha ou Om. Seria muito mais simples se TODAS as falas da tartaruga fossem sempre marcadas como itálico, que é a forma que muitas vezes se usam para mostrar “pensamentos”.

Então o seguinte diálogo entre os personagens (p.43):

Brutha mordeu o lábio.
– Humm. Sim. Quer dizer, sim.
– Você tem certeza?
– Sim.
– Pensei que isso fosse onipotente.

faria mais sentido para mim se fosse:

Brutha mordeu o lábio.
– Humm. Sim. Quer dizer, sim.
Você tem certeza?
– Sim.
Pensei que isso fosse onipotente.

porque eu saberia imediatamente quais eram as falas de Om.

Ao longo do livro eu às vezes me perdia na marcação do diálogo porque esperava que Om falasse “em itálico” e isso não acontecia. Por isso tirei pontinhos, além da questão do miolo mais simples.


História

Muito bem! Vamos começar esta resenha com uma historinha. Uhn… talvez duas. Sabem, acho que é coisa da idade. Você passa a sempre ter uma historinha para contextualizar as coisas. Mas sim, me acompanhem…

Sou leitora de quadrinhos e fão de coisas com ilustrações desde muito pequena. Desde a época que era “coisa de menino”. A editora Conrad sempre teve uma linha de livros de RPG, depois vieram os mangás e depois os livros de ficção. Não necessariamente nesta ordem, mas é como fui impactada na época pela informação.

Eu me lembro o quanto fiquei encantada pelos livros da série Discworld. Não me importava muito sobre o que era a história ou quem era o autor, mas as capas ilustradas sempre foram muito atraentes. Sempre quis comprar, pelo menos o primeiro, mas na época eu era dura e o investimento era alto. Então, a Conrad meio que faliu, os livros meio que sumiram e eu achei que se quisesse ler alguma coisa de Terry Pratchett, só importando.

Aí a Bertrand lançou Pequenos Deuses e eu vi que essa era minha oportunidade de ouro para finalmente conhecer o autor inglês.

Vamos à segunda historinha!

Estudei por 11 anos em um colégio católico e junto com as matérias “normais”, ao longo de todo esse tempo, também tive aulas de religião. Muitas vezes ela se resumia em ler a bíblia (o antigo e novo testamento), aprender “milhões” de orações diferentes e frequentar as missas nas datas certas. Só que a adolescência, esta coisa contestadora e insuportável do ser humano, chegou para mim e crer somente pela fé e porque está escrito em um livro, que foi escrito por homens que estavam “no poder”, e com ideias responsáveis por inúmeras guerras e conflitos… Sei lá, passou a não fazer sentido para mim. Muito culpa da grade escolar misturar aulas de história e de religião para um bando de adolescentes sem internet. ¯\_(ツ)_/¯

As coisas simplesmente acontecem, uma após a outra. Elas não se importam com quem sabe. Mas a história… ah, a história é diferente. A história tem de ser observada. Caso contrário, não é história. É só… bem, coisas que acontecem uma após a outra. (p. 6)

Minha primeira experiência com um livro que, direta e indiretamente, criticou as religiões institucionalizadas foi a série de Philip Pullman, Fronteiras do Universo, que, até hoje, é uma das minhas leituras favoritas DE TODOS OS TEMPOS. Então, assim, eu gosto de livros que questionam cestas coisas do status quo da vida.

Pequenos Deuses foi mais uma dessas experiências questionadoras e contestadoras, sobre as leis que “alguém” disse que devem ser seguidas, e que milhares simplesmente aceitam como “o certo”.

Como nunca li nada da série antes, não sei se está faltando alguma informação para entender melhor a história, mas pelas sinopses dos livros anteriores, que já são 12, eles parecem ser bem independentes, com a participação pontual de um ou outro personagem.

Pequenos Deuses se passa na cidade de Omnia, onde a religião, que segue os preceitos do deus Om e seus sete profetas, é dominante e seus membros do clero governam inclusive na política. A religião está em um momento de expansão, dominando outros territórios e cidades, oprimindo todos os que não seguem o Grande Deus e passando os que são (ou parecem ser) traidores pela Quisição. O principal representante dos exquisidores, Vorbis, é um homem extremamente cruel, que envia pessoas para seus inquisidores e, através da dor e de torturas inimagináveis, consegue as informações que precisa, tudo pelo progresso da religião e para acabar com todos os que pensem de forma diferente. Vorbis faz isso sempre dizendo que esta é a vontade e a indicação de Om.

Do outro lado temos Brutha, um jovem noviço, com problemas para aprender a ler e escrever, e que faz tudo para ser útil e passar desapercebido. Brutha é lento, seu raciocínio demora para funcionar mas isso é porque o jovem não esquece de nada. Ele é dotado de uma memória fotográfica e analítica. E Brutha é a única pessoa em toda Omnia que consegue ouvir uma pequena tartaruga que siz ser o Grande Deus Om.

A história gira em torno da ironia entre política, religião e domínio; sobre quando o caminho de Vorbis, Brutha e Om se cruzam e como o exquisidor percebe o poder que o jovem possui; sobre a conscientização de Om em relação aos seus fiéis e a responsabilidade que ele nunca percebeu que tinha; sobre os questionamentos que Brutha começa a ter por estar se relacionando com o Grande Deus e perceber o quanto ele é falho, egoísta e nunca realmente se preocupou com seus seguidores; e sobre a necessidade dos seres humanos de precisarem de deuses, precisarem acreditar em alguma coisa, e responsabilizar esta “coisa” por seus erros e suas decisões.

(…) Porque deuses precisam de crenças, e humanos querem deuses. (p. 10)

Seguir a narrativa de Pequenos Deuses inicialmente é uma tarefa um pouco difícil. Terry Pratchett não é muito linear, não coloca capítulos para separar o raciocínio do leitor, e ele vai e volta entre os núcleos dos personagens, sem muitas apresentações, jogando os nomes para os leitores como se já tivéssemos conhecimento deles. Depois você acaba se acostumando e a narrativa fica mais centrada em Brutha, mas confesso que algumas “pegadinhas” e informações interessantes se perderam ao longo da leitura e eu só percebi ao passar os olhos novamente pelas páginas.

Gostei muito de Pequenos Deuses. Não é uma leitura leve porque tem algumas minúcias nos questionamentos políticos e religiosos que precisam de uma certa atenção. Fiquei com medo de ter algum tipo de problema porque Terry Pratchett é inglês e contemporâneo de Douglas Adams. E, assim… eu não consegui terminar ou gostar da série dO Guia do Mochileiro das Galáxias. Apesar do início errático, a história de Pratchett é muito mais plausível, palatável e fácil de acompanhar. Gostei da evolução e amadurecimento de Brutha, que é uma representação da nossa necessidade de acreditar, mas sem deixar de questionarmos as coisas

(…) A teoria de Koomi era de que os deuses passam a existir, crescem e prosperam, porque se acredita neles. A crença em si é o alimento dos deuses. (p.96)

Provavelmente vou voltar a buscar por outros livros de Terry Pratchett, afinal, ainda existem pelo menos 46 (O.O!!) livros publicados lá fora, segundo o Goodreads, além dos companions books. Apesar de o autor ter falecido em março deste ano, ainda temos muito de seu mundo para conhecer e acompanhar.


Até a próxima! o/

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