resenha

A Corte do Ar – Stephen Hunt

20 fev 2014
Informações

a corte do ar

stephen hunt

saída de emergência

série jackelian #1

554 páginas | 2013

3.25

Design 4

História 2.5

Quando a órfã Molly Templar testemunha um assassinato brutal no bordel onde foi colocada como aprendiz, seu primeiro instinto é correr de volta para o orfanato em que cresceu. Ao chegar lá e encontrar todos os seus amigos mortos, percebe que ela era o verdadeiro alvo, pois seu sangue contém um segredo muito cobiçado pelos inimigos do Estado. Enquanto isso, Oliver Brooks é acusado pela morte do tio, seu único familiar, e forçado a fugir na companhia de um misterioso agente da Corte do Ar. Perseguido pelo país, Oliver se vê cercado de ladrões, foras da lei e espiões, e pouco a pouco desvenda o segredo que destruiu sua vida. Molly e Oliver são confrontados por um poder antigo que se julgava destruído há milênios e que agora ameaça a própria civilização. Seus inimigos são implacáveis e numerosos, mas os dois órfãos terão a ajuda de um formidável grupo de amigos nesta aventura cheia de ação, drama e intriga.

Design

A primeira vez que vi ao vivo a capa de A Corte do Ar foi no evento que a Arqueiro fez para os blogs aqui no Rio. Se você ainda não teve a oportunidade de pegar o livro nas mãos sugiro fortemente uma visita à livraria mais próxima. Não é sempre que se vê um livro com um projeto de faca especial e, neste caso específico da Saída de Emergência, muito bem aplicado.

A ilustração de capa tem um quê de poster de filmes antigos de aventura, com a fonte em “movimento” ascendente, e os desenhos em estilo “vintage”. O mais legal é que o projeto foi pensado de tal forma a dar a ilusão que se está olhando pela escotilha de um dos dirigíveis da história. No local aonde a faca fez o furo circular foi aplicado uma película plástica que passa a impressão de vidro sujo, e a ilustração também está presente na orelha do livro. Com o livro fechado, você vê a imagem da parte interna. Muito bonito e um carinho impressionante com o leitor.

Ainda na capa, várias aplicações de verniz localizados em pontos estratégicos da ilustração, presente não só na frente mas também na lombada, orelhas e quarta-capa.

O miolo segue exatamente o mesmo padrão que já analisei no primeiro livro que li da editora, Mago Aprendiz, então sem surpresas aqui, infelizmente.

Vale comentar que o livro tem sumário, que eu não achei muito necessário já que os capítulos são numerados e não tem títulos, e glossário com alguns termos utilizados durante a história. Levando em consideração sua complexidade eu meio que esperaria um apêndice à la Senhor do Anéis para explicar um monte de coisas que, para mim, ficam em aberto ou sem informação mesmo.


História

Eu sempre tive aquelas certezas absolutas que enfiamos na cabeça de que eu nunca ia “não gostar” de uma série de fantasia. Só que veio A Corte do Ar e jogou na minha cara que não é bem assim que a banda toca. Stephen Hunt pode ser um dos proeminentes na criação do estilo steampunk, mas se todos os autores forem como ele estou ferrada.

Entrei no universo de Chacália achando que ia encontrar dois personagens como Lyra e Will, protagonistas de As Fronteiras do Universo do Philip Pullman, mas Molly e Oliver não são nada parecidos com os primeiros. E eu não consegui criar um vínculo com nenhum dos dois durante as trocentas páginas de A Corte do Ar. No fim das contas eles mais parecem adultos travestidos de adolescentes.

Meu maior problema é que o livro é extremamente confuso, ou eu fiquei muito confusa enquanto lia. São tantos termos, tantos conceitos, um atrás do outro, e quando você acha que está se acostumando com as coisas vem o autor e “toma mais informação no meio da sua cara!”. T_T

Tapa na cara

E por mais que o livro tenha um glossário de termos no final, eles não me ajudaram durante a leitura, o que me deixou bastante frustrada em alguns momentos.

Outra coisa é que a história começa muito lenta. Deixa eu explicar bem, é muito lenta mesmo. Como Hunt está definindo sua mitologia ele precisa explicar tudo, descrever muita coisa, mas foi esta descrição que muitas vezes falhou para mim. São explicações sobre uma tecnologia e tendências muito diferentes do que nós entendemos de tecnologia, não tem muito parâmetro com a nossa realidade. Além disso, ele se prende aos cenários, ao maquinário, mas as pessoas, que é o que realmente me importam, ele praticamente não descreve. Já comentei que eu tenho dificuldade para imaginar algumas coisas e às vezes eu preciso que alguém “desenhe para mim”…

Molly e Oliver também são personagens complicados. A história alterna entre os dois à frente da narrativa, cada um com seus personagens coadjuvantes, mas não achei que eles foram bem estruturados, desenvolvidos ou que tiveram um amadurecimento sensato durante a aventura. Os dois têm seus “mundos comuns” destruídos e não sabem o porquê (e preciso confessar que acho que ainda não sei O.o), e precisam fugir e se esconder enquanto são perseguidos por duas forças que parecem não ter nada a ver uma com a outra.

A corte do ar que dá nome ao livro não tem um papel tão importante quanto eu esperaria. Sua história, função e personagens não são muito desenvolvidos ou explicados, e fiquei sentindo um leve cheiro de “deus ex machina” relacionado a participação da ordem na história, o que não foi muito legal.

Molly tem uma aproximação muito forte com os seres mecânicos da história enquanto Oliver é responsável pela pirotecnia mágica. Eles deveriam ter um papel conjunto na resolução da trama mas que no fim das contas eu não entendi para quê. Oliver passa de um rapaz caçado com possibilidades de extremo poder, para uma máquina assassina quase incontrolável num estalar de dedos. Enquanto isso Molly também evolui em relação aos seus poderes de uma forma muito rápida e você meio tem que aceitar que é assim…

aha-supernatural

A guerra entre Chacália e Quatértuno também é outra coisa confusa e o autor coloca a toda hora momentos “ahá! por essa você não esperava!”. Por isso eu meio que desisti de acompanhar ou entender os plots twists. Além disso temos os termos e neologismos do livro. Em alguns momentos o autor fala em Quatertunianos, daqui a pouco são turnianos… até eu entender que são as mesmas pessoas, e não outra nação, já se foi muito do livro.

Descobri também que tenho preguiça ou problemas com nomes muito grandes. Eles atrapalham minha velocidade de leitura, porque eu preciso passar por to-das-as-sí-la-bas da palavra para conseguir seguir em frente na frase. Passei a inventar palavras para poder facilitar o fluxo. Quatertunianos viraram “quartys”; engrena-gi-ga, “engrengigi”; caranguenarbiano, “caranguejanos”; Mecância, Metallicana (é, sou fã de Bastard!!) e por aí vai. Não sei se a escolha de traduzir todos os termos foi adequada aqui, ainda mais quando alguns nomes ou palavras continuaram no neologismo original.

O livro é apoiado em pilares de tecnologia, política (democracia vs monarquia) e mágica, que se misturam e conflitam entre si, e são os responsáveis para que entidades descontroladas sedentas de sangue e crueldade sejam trazidas de volta à vida. Além disso é possível perceber uma crítica ao comunismo, à igualdade e homogeneização da cultura/sociedade. São assuntos interessantes mas que em muitos capítulos se tornam pesados e maçantes.

Para não parecer que eu não gostei de nada do livro, as descrições de batalhas do autor são bastante elaboradas e é possível imaginar completamente a cena durante a história.

No fim da leitura fiquei com a impressão que 1/3 do livro eu não entendi, 1/3 eu nem me esforcei e ignorei, e 1/3 foi muito legal. Talvez por isso eu ainda queira dar uma segunda chance para o autor e ler a continuação de Jackelian, esperando que os seguintes consigam me conquistar.


Até a próxima! o/

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3 Comentários

  • Responder Camila K. 30 mar 2014 at 14:05

    Samara, adorei sua resenha.
    Parei mais ou menos na página 150 desse livro porque estava tendo as mesmas dificuldades que você. Trocentas “invenções” e um glossário que não contextualiza com a história. Achei super confuso e acabei desistindo do livro, pelo menos temporariamente.
    Mas não desista do steampunk não! Já leu “Alma?”, da série O Protetorado da Sombrinha? Vale a pena!

    • Responder Samara Maima 30 mar 2014 at 17:14

      Oi Camila, obrigada pela visita.
      Você não é a primeira pessoa a me indicar “Alma?” e ele já está devidamente comprado, mas começo a pensar se não é a hora de passá-lo na frente de todos os livros. ^.~
      Não desisti do steampunk, não se preocupe, adoro demais a estética para abandonar a ideia de encontrar “um livro para chamar de meu” só por causa de uma experiência não muito bem sucedida, né?
      Abraços e obrigada pela indicação!

  • Responder Ize Chi 21 fev 2014 at 00:42

    Hahaha
    Estou rindo da minha sorte aqui. Sempre tive um preconceito com o steampunk, pensando se valia mesmo a pena ler ou não. Aí resolvi ler um e, para a minha sorte, foi um bom (já falei dele para você). Não vou dizer que foi Mega excelente, pois achei que teve alguns plots mal utilizados, mas no geral, foi bem legal :)
    e pelo que você falou neste post, esta não será uma opção para que eu continue lendo steampunks rsrs

    Mas eu sou mega chata como leitora, então, me ignore xD

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