resenha

O Oceano no Fim do Caminho – Neil Gaiman

3 jul 2013
Informações

o oceano no fim do caminho

neil gaiman

intrínseca

série ---

208 páginas | 2013

4.75

Design 5

História 4.5

14

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Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos. Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.

Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.

Design

Provavelmente eu vou acabar me repetindo ao longo da parceria com a Intrínseca, mas eu acho que eles sempre tem um carinho absurdo com seu livros. O projeto gráfico de O Oceano no Fim do Caminho ficou lindo! O livro foi impresso na versão menor dos livros da editora, igual A Culpa é das Estrelas, o que faz com que fique ainda mais fofo de se ter na estante.

Manter a capa original foi uma ótima ideia, afinal ela é linda e impactante com essa moça “afogada”. Além disso o detalhe do relevo seco e aplicação de verniz no título e no nome do autor criam ainda mais sutileza. Detalhe para falsa-folha e folha de rosto com a imagem da capa estourada em preto e branco, que meio que traz o clima de fantasia para dentro do livro.

Fiquei com dó que o livro veio todo justinho e conforme fui manuseando ele inchou e se abriu um pouco. Dava até para ouvir o barulho da cola cedendo de tão apertadinho que o livro estava.

O miolo é bastante equilibrado, com uma boa escolha de fonte, e capitulares nas aberturas de capítulo. Fazia tempo que eu não via capitulares em livros recentes, ou pelo menos não me impactaram tanto. O livro é leve, com papel amarelado pólen de 80g e fácil de carregar, seus braço com certeza vão agradecer enquanto você ler no transporte público.

Praticamente não lembro de problemas de revisão, então foi um bom trabalho levando em consideração que foi lançamento simultâneo com o americano.


História

Meu primeiro contato com Neil Gaiman foi em 1997, quando a editora Abril ainda publicava quadrinhos da Marvel/DC por aqui e trouxe “Morte: O Grande Momento da Vida” [skoob]. Não me lembro muito bem porque decidi comprar os três volumes que faziam parte deste arco, provavelmente por culpa do desenhista, Chris Bachalo. Ou talvez tenha sido por causa da personagem Morte, uma gótica impressionante e linda. Mas com certeza não foi por causa do Neil Gaiman.

Alguns anos depois, minha mãe deu para meu irmão de natal Sandman: Caçadores de Sonhos [skoob], com ilustração de Yoshitaka Amano. Resolvi pegar para ler um dia, em alguma das minhas féiras na faculdade, mais uma vez não por causa de Neil Gaiman, Amano é o principal concept artist dos jogos de Final Fantasy da Square.

Mas sempre soube, e também experimentei nas minhas duas experiências, que Neil Gaiman é um mestre da fantasia, do absurdo, de sonhos. Só que nada me preparou para O Oceano no Fim do Caminho.

Como diz a sinopse, um homem voltando para sua cidade natal para o funeral de seu pai, visita a casa no final da rua onde morava, e relembra momentos importantes de sua infância. Especialmente fatos que ocorreram com as mulheres que moram naquela casa, quando ele tinha sete anos de idade. Lembranças de uma amiga importante, que ajudou a salvar sua vida e da sua família, e que tinha um oceano no quintal de casa.

Além da história surreal, do nível de suspensão de realidade e de descrença que o leitor precisa ter enquanto passeia pela narrativa, a quantidade de frases maravilhosas e tocantes ao longo do caminho é impressionante. Eu passei por muitas páginas com a vontade de cutucar a pessoa ao meu lado no metro e falar: “olha que maneiro essa citação!”, com os olhos arregalados pela satisfação de me identificar com o que estava escrito.

Cheguei a postar algumas fotos do instagram com essas passagens marcantes, mas se vocês não acreditam, olha só:

“Eu adorava mitos. Não eram histórias para adultos e não eram histórias para crianças. Eram melhores que isso. Simplesmente eram.”
Gaiman; Neil, 2013, p.66

Então a leitura toda mexeu bastante comigo. Independente da viagem maluca que é a jornada desse adulto/menino. Acompanhar os questionamentos sobre a vida, as escolhas, o que é ser um adulto (e que na verdade, nenhum de nós é) faz com que, ao chegar na última página, você ainda fique um tempo absorvendo tudo, contemplando a fantasia criada pelo Gaiman.

Fora todas as alegorias maravilhosas, uma das coisas que mais gostei foi perceber nas mulheres Hempstock uma representação das mitológicas Nornes, Eríneas, Moiras, Horas, Hecate. Todas elas representações de uma trindade feminina que é responsável pelo “ciclo de vida” da mulher (donzela, matrona, velha), ou da própria humanidade, dependendo do seu ponto de vista. Dando uma pesquisada rápida na mitologia do próprio Gaiman, ele costuma utilizar esta trindade em outras histórias do Sandman.

Acho que uma das coisas mais perturbadoras da história é acompanhar tudo o que acontece pelos olhos de uma criança de sete anos de idade. A coragem e o medo andando lado a lado. O relacionamento atribulado, e assustador, entre pai e filho. Confesso que, por culpa da forma como Gaiman narra, existiram momentos em que eu me transportei inteiramente para os a história, fiquei tensa e assustada junto com o menino e com Lettie Hempstock.

Eu adorei toda a leitura, toda a loucura, toda a tensão e o suspense. Entretanto, talvez eu seja muito simplória, me decepcionei com o final. Talvez eu tenha pouca imaginação, talvez seja apenas preguiça, mas prefiro muito mais quando algumas coisas são explícitas e finalizadas.

Independente disso, eu gostaria que todos pudessem um dia ler este livro, para passar por suas páginas, se sentindo representados ou não de alguma forma na narrativa. Conheçam um pouco da profundidade da fantasia e da magia que Neil Gaiman consegue criar em alguns trechos da história. Permitam-se ser crianças crédulas mas questionadoras.

“(…) Pessoas diferentes se lembram das coisas de jeitos diferentes, e você nunca vai ver duas pessoas se lembrando de uma coisa da mesma forma, estivessem elas juntas ou não. Se elas estiverem uma ao lado da outra ou do outro lado do mundo, isso não faz a menor diferença.”
Gaiman; Neil, 2013, p.196

Afinal, cada um tem a sua própria verdade, então espero que todos tenham um dia a oportunidade de ler O Oceano no Fim do Caminho, para assim construir as suas.

Ficou faltando comentar que minha cabeça explodiu enquanto conversava com a Lygia do Brincando com Livros (ela também fez resenha do livro! Leia aqui ó!).

<spoiler alert! quer dizer, foi um certo spoiler pra mim XD>Eu passei o livro inteiro sem perceber que o adulto/menino que conta a história não tem nome! Sei lá porque, mas para mim o garoto tinha nome e provavelmente eu chamava ele de alguma coisa enquanto lia. Só me toquei realmente que não tinha quando a Lygia comentou e quando fui reler a sinopse. O livro é tão viagem, ou me engoliu de tal forma, que não me permiti guardar essa informação.</spoiler>


Até a próxima! o/

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2 Comentários

  • Responder novas aquisições do blog #28 | Parafraseando LivrosParafraseando Livros 22 jul 2013 at 11:33

    […] O Oceano no Fim do Caminho [skoob] – Neil Gaiman (resenha aqui) […]

  • Responder Daiane Miranda 8 jul 2013 at 12:39

    Oie,

    Há algum tempo atrás vi esse esse livro , e até me interessei mas acabei esquecendo, agora tenho certeza que preciso ler, vou procurar de novo, sua resenha realmente me deu vontade de ler

    Bjs,

    e se quiser ver
    http://garotadasletras.blogspot.com.br/2013/07/resenha-casorio.html

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